Crise. Qual crise?


Supertramp - Soapbox opera; album Crisis? What Crisis? (1975)



Ver debates entre putativos primeiros-ministros oriundos do bloco central só com a companhia do filósofo Daniel Innerarity. Aprisionados a executar programas que já não são matéria da sua decisão, limitados a apresentarem resultados sobre orientação, a encenação em torno da liberdade de escolha torna-se patética: "quanto menos há para decidir, quanto menos está em jogo, tanto mais se faz notar a qualidade da representação".

O ponto de partida da maioria da assistência que preside a este tipo de espectáculos conduz-se pelo estereótipo que os artistas não são sérios. A aparência é soberana. O que aparentar ser menos mentiroso, um pouco mais económico nas contradições e um nadinha contido na demagogia triunfa. "Assim sendo, vence aquele que melhor sabe representar a credibilidade. Por isso a lógica dos meios de comunicação exige a personalização da política, a continua vinculação de notícias mais ou menos abstractas a nomes e, se possível, a rostos".

A campanha vai avançando. A possibilidade de agir politicamente de forma diferente e livre é ténue. Sobra personalizar os problemas para parecer que existem clivagens. "Os comportamentos e os temas só suscitam interesse quando as pessoas vêm neles assuntos pessoais. Na contenda eleitoral já não se enfrentam programas, mas rostos, sem um rosto visível nem, sequer as melhores ideias politicas se podem fazer notar".

Esperando a Troika



Genesis Firth Of Fifth (Selling England by the Pound) 1973


Tendo, por mais de uma vez, achado de grande pessimismo e radicalismo muitas das posições deste autor, não encontro melhor forma de descrever o que se passa na III República que num dos seus textos. Tanto mais que tendo sido escrito em 1985 ganha uma intemporalidade notável.

"Nunca é demais denunciar que a economia portuguesa está em crise porque Portugal está em crise.
Tornou-se o Estado português como um grande «diner-buffet», onde os gulosos satisfazem a voracidade; mas, como qualquer «diner-buffet», desaparece rapidamente quando não há quem sirva com ordem e preceito e confeccione arduamente ao ritmo da voracidade.
E, no atropelo da corrida às vantagens individuais ou de grupo, criaram-se as tensões, o conflito, o isolamento. A convivência entre os portugueses está degrada e a competição exacerbada; imperam, como critérios de promoção socio-profissional, o compadrio, o sectarismo, a corrupção, a versatilidade de carácter.

A competitividade económica foi abafada pela competitividade política. A economia da capacidade concorrencial foi substituída pela economia da capacidade reivindicativa.

As análises, os diagnósticos e as terapêuticas sobre a economia portuguesa pululam. No ambiente em que se vive, são geralmente exercícios sectários ou expressões de circunstancialismos políticos".

Herlânder Duarte
Economia de Bem Comum (1985)

Foi beatificado João Paulo II no dia do trabalhador. Sobre o papel do trabalho na realização humana, a problemática filosófica do que andamos a produzir, para quê e com que efeitos? ou sobre os limites evidentes do liberalismo e do socialismo para resolver os problemas humanos foi, de todo, "milagroso" nas contribuições que nos deixou.

" O Homem de hoje parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz. ... Nisto parece consistir o capítulo principal do drama da existência humana contemporânea, na sua dimensão mais ampla e universal. Consequentemente, o Homem vive cada vez mais no medo".

João Paulo II
Encíclica Redemptor Hominis (1979)

Tirar partido de Surpresas



Sara Bareilles - The Light

Foi uma estrondosa surpresa o que encontrei nestas férias de Carnaval. Tinha um objectivo modesto. Há anos que não fazia a costa portuguesa entre a Lagoa de Albufeira (Caldas da Rainha) e S. Pedro de Muel (Marinha Grande). Pelo meio queria recordar o sítio da Nazaré e o seu Santuário Mariano. Duas alegrias. Na III República ainda existem “portugais” que tentam resistir à banalização e delapidação.
Começando pela banalidade, não é que na Nazaré as pessoas vivem a quadra espontaneamente, é ver os restaurantes e bares cheios de mascarados sem batuta organizativa! Passando ao estado delapidado a que chegamos é extraordinário que a costa a Norte de Nazaré, entre Légua e a Praia de Vieira, em termos ambientais, tenha sido preservada mas, ao mesmo tempo, devidamente equipada em quase todo o seu percurso. É, inclusive, possível em ciclovias e de forma pedonal percorrê-la na maior parte da sua extensão. Estava com receio, mas S. Pedro de Muel mantém o encanto de sempre.

Este Carnaval teve, também, uma particularidade encantadora. Como a Terça-feira, dita gorda, coincidiu com o dia Internacional da mulher, as homenageadas tiveram a sorte de não serem instrumentalizadas e massacradas como, habitualmente, sucede anualmente a 8 de Março. Graças ao carnaval escaparam a ser tratadas de duas formas humilhantes. Com “cotas” e data “protectora”. A propósito de igualdades e semelhanças, que é um assunto sério, nada como ouvir Sara Bareilles. Não desejam os “humanos” o mesmo das relações humanas independentemente do “género”? Encontrar quem seja fonte de energia para a sua existência e luz que ilumina uma trajectória de vida. Umas vezes ter espaço para respirar, outras a oportunidade de recuperar uma respiração perdida ou, ainda, possibilidade de optimizar novas formas de respiração?




Sara Bareilles - Breathe Again

Ziguezagues na Comunicação



Peter Gabriel e Paula Cole (Come Talk To Me) Tourné Secret World -1994


Porventura por se tratar do mês em que faço anos tenho meditado no sentido da amizade. Um balanço de vida é sempre propício para pensarmos nas pessoas que têm prazer em comunicar connosco. Contabilizar com quem se pode contar quando necessitamos de conversar, mais desesperadamente desabafar. Mais modestamente apenas “falar”, desafiar no sentido de “ venha falar comigo”. Removendo nesta tarefa fui impelido a revisitar a saudosa tourné de Peter Gabriel e Paula Cole ocorrida em 1994 (secret Word). Foi uma dupla perfeita. Vale a pena escutar “Come Talk To Me”.
A maior dificuldade, partindo da situação particular de se considerar apenas a comunicação livremente escolhida, consiste em dosear o consentimento e a restrição humana que estamos dispostos a partilhar com os que nos rodeiam. Saber gerir o que em termos de “consentir” e “restringir” é adequado em cada circunstância e para uma pessoa em concreto é um desafio de grande envergadura.
O maior risco da lealdade comunicativa, porque a informação é sempre fonte de poder, é a crueldade com que ela pode ser usa. Em qualquer âmbito societário as “tareias” que se podem levar são monumentais. Nunca é de mais salientar como aponta Malcolm Skibeck “um ser humano pode ser bem informado, mas mal formado”.
Distanciado do pessimismo e da crueza da obra de Cesare Pavese, sou tentado a dizer apoiado numa sua frase célebre: “No dia em que poderes mostrar a tua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar a sua força”, encontras a amizade, mais pontualmente o amor.
Na comunicação humana a Boa-Fé é mais importante do que a Sinceridade. Ser sincero é não enganar nem mentir aos outros, mas estar em Boa-Fé é não mentir nem aos outros nem a nós mesmos. Quando se está de Boa-Fé, mesmo enganado, diz-se o que se pensa acreditando. Por isso não deixa de ser fundamental estar aberto a uma rectificação, sujeitos a uma correcção, em suma testar o que encaramos como verdadeiro. Nas relações humanas custa imenso, mas como diz o reputado filósofo André Comte-Sponville “mais vale uma tristeza verdadeira do que uma falsa alegria”.
Quando se confia, se gosta e se tem reconhecimento por alguém naturalmente existe disposição para dar alento, proporcionar uma oportunidade, contrariar uma desistência. É sem dúvida uma boa forma de medir a amizade e o amor dos que estão dispostos a partilhar connosco (bem “canta” Peter Gabriel & Paula Cole uma vez mais - Don't Give Up).



Peter Gabriel & Paula Cole (Don't Give Up) Tourné Secret World -1994

Que bela forma de comemorar o centenário

Em termos politológicos Portugal já tem um representante da República a conferir dignidade ao desempenho do cargo – o Presidente da AR, segunda figura do Estado – pelo que só o desejo de duplicação de funções, em tempo de crise, justifica este empurrar do povo português para um acto eleitoral. Notavelmente com 23% dos votos expressos é possível eleger, temporariamente (projecto quinquenal), um represente estadual???...Nacional??? ….????
Sobre a campanha grande retrocesso. Nas monarquias os Reis e as Rainhas emprestam a sua imagem para dar credibilidade ao dinheiro. É vê-los cunhados e impressos em moedas e notas. Nas repúblicas os candidatos ainda estão na fase de provar e justificar como aparece o dinheiro nas suas contas bancárias ou se materializa de forma imobiliária.


Disputa eleitoral

Nº

%

Abstenção

5.139.726

53%

Cavaco Silva

2.230.104

23%

Manuel Alegre

831.959

9%

Fernando Nobre

593.868

6%

Francisco Lopes

300.840

3%

Brancos

191.159

2%

José M Coelho

189.340

2%

Nulos

86.543

1%

Defensor de Moura

66.091

1%

Total

9.629.630

100%



Cavaco em 2006 teve 2,773,431 votos, perdeu mais de meio milhão. Está satisfeito, ainda por cima teve a proeza de ter obtido o pior resultado de um candidato em reeleição. Ficamos a saber que a sua vitória é sobre a calúnia personalizada sobre a sua pessoa. Continua a ser o de sempre: “nunca se engana” e é preciso “nascer” ou “morrer” para encontrar outro igual em capacidade e honestidade.
Lembrando-me dos anos de 1994 e de 1995, recheados de tabus e silêncios, em que tomava café devorando de forma assassina "bolo-Rei” como um carbonário sonhando ser presidente da colectividade portuguesa, veio-me ao ouvido a música de Sara Bareilles e a sua apropriada letra para “Reis de nada e de ninguém”.



Sara Bareilles (King Of Anything)


Manuel Alegre cumpriu no esperado para o seu carácter. Consegue exercer uma cidadania livre onde a defesa da caça, da tauromaquia, das dúvidas sobre “homossexualidades”, não são impeditivos para convencer uma base eleitoral que, nos manuais elementares de sociologia política, na sua essência repudia todas estas causas e desconfianças.
Nunca percebi a sua construção identitária. Sempre encostado a um passado glorioso da I República e de resistência na II, parece que tem amnésias nas “alegrias” que os seus familiares tiveram no decurso da democracia parlamentar monárquica do século XIX. Não teve o Rei Dom Carlos I, quinze anos antes de ser assassinado, tempo para fazer “alegre” a sua avó paterna com o título de baronesa da Recosta (decreto de 16-11-1893 / carta de 30-11-1893), quando o seu pai, bisavô de Manuel Alegre, já tinha sido encartado com o baronato de Cadoro. Só levar a sério uns costados, desequilibra a coluna.
Alegre tem o mérito de não poder ser ignorado no panorama cultural português. Não foi graças à sua poesia que podemos ouvir a magnifica Maria Ana Bobone, numa Igreja, sem medos nem preconceitos de parecer propaganda, ou melhor, proselitismo religioso.


Maria Ana Bobone (Meu Nome é Nome de Mar)

Ano 2011






Genesis (Ripples) - Roma 2007


Vai ser necessária muita energia para 2011. É evidente a impreparação para lidar com a conjuntura. No pânico a mesquinhez vai tomando conta das relações humanas. A falta de perspectivas vai arrasando muitos laços de solidariedade que mantinham e explicavam o funcionamento e a razão de ser das organizações. É uma perfeita espiral de violência psicológica a que se está sujeito.
O que me parece mais lamentável é a quezília que torna as pessoas mais desconfiadas, isoladas, incapazes de se reencontrarem noutros caminhos, explorando novas oportunidades. Realizando um abandono ou separação sem mágoa, permitindo deixar portas por abrir se as circunstancias se proporcionarem.
Por todas estas razões o exemplo de Phill Collins (ausente dos Genesis durante 10 anos (1996/2006) me tem povoado a mente neste final de ano. Deixando, até com justificação de saúde, voltou ao projecto da banda com a ambição de recuperar, não apenas os que nunca a abandonaram, Tony Banks e Mike Rutherford, mas os que há muito a tinham deixado, Peter Gabriel e Steve Hachett. Não foi possível reunir todos, realizou-se a tourné com quem livremente se disponibilizou. Só estou grato por ter tido a oportunidade de escutar o tema Ripples da forma como foi interpretado.
A reter. Não existe espaço para “birras", participou livremente quem quiz, mas respeitaram-se todos, porque o hábito de continuar em diálogo nunca se perdeu, totalmente, ao longo dos anos. Só se “abandona-regressando” quando se sabe manter “pontes”, qualidade pouco visível, na actualidade, em que na ruptura estéril tantos se empenham.

Não sei a que horas me vou levantar, no 44º dia Mundial da Paz que tem por lema a "Liberdade religiosa, caminho para a Paz", mas bem podia começar a manhã com Steve Hackett (spectral Mornings).






Steve Hachett (Spectral Mornings)

Até lá vou utilizar um outro guitarrista ao nível de Steve Hackett, Andrew (Andy) Latimer, para realizar uma Catarsis (no sentido de acalmia e eliminação de factores que agitam a consciência) e uma Ataraxia (consentida na procura da tranquilidade da alma, na ausência de perturbações, na harmonia dos pensamentos) sobre o que foi o ano 2010.

Camel (Ice)

Pensar nos Esquecidos



Ecos na Catedral - Madredeus (2001)


No contexto da globalização existem mutações sociológicas em que comunidades religiosas são sujeitas a pressões identitárias entre os seus «localismos territorializados» tradicionais e os «localismos desterritorializados» em diáspora, desenvolvidos voluntariamente (fluxos de emigração) ou sobre pressão (fluxos de exilados).
Os cristãos árabes fornecem-nos abundantes exemplos desta natureza e sempre me suscitaram particular fascínio. O que se passa no Iraque deve ser motivo de reflexão. Circunscrevendo ao universo católico árabe, o mais significativo na especificidade iraquiana na forma do Patriarcado Caldeu, assiste-se a uma erosão da sua presença na vertente do «localismo» histórico e numa tentativa de afirmação crescente na diáspora permitida.
Incompreendidos por ignorância, apatia ou simples desinteresse mediático são esquecidos, paradoxalmente, nas sociedades que desenvolveram o multiculturalismo. São necessárias carnificinas como a ocorrida na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Bagdad, no passado dia 31 de Outubro, para garantirem uma audiência mínima. Onde habitam, apanhadas pelo fundamentalismo religioso, são presa fácil para descarregar frustrações.
No caso do Iraque, oportunistamente por parte dos que querem transformar o país num aglomerado homogéneo étnico/religioso, realidade que nunca o foi, vêem-se transformar no bode expiatório, num alvo fácil, num sector colaboracionista, de “forças invasoras”. Estas, é sabido sem grande esforço intelectual, formam uma coligação precipitada, descabida e desproporcionada que destruiu uma sociedade que, sem dúvida mergulhada num autoritarismo atroz, tinha uma estrutura societária em que as matérias religiosas gozavam de liberdade.
Apanhados no meio de dois produtos expressivos da globalização, em ambos os casos com protagonistas exógenos, no caso do fundamentalismo islâmico (infiltrados) no caso dos invasores (transportados) a presença multissecular cristã iria ficar sobre ameaça extrema. Para ironia macabra da Igreja Católica Caldeia (também designada por Melquita do Oriente), a grande desestabilização veio de uma iniciativa de uma potência que esteve na base do rastilho do fundamentalismo islâmico em muitas partes do Mundo e, internamente, se debate com um fundamentalismo protestante.
A Equiparquia Metropolitana Caldeia de Bagdad tinha 325,000 crentes em 1990, apenas 145,000 no ano 2008. Menos de metade em 18 anos (Fonte – Annuario Pontifício – The Eastern Catholic Churches/2008). Não é um genocídio, mas é um etnocídio o que está a acontecer aos caldeus.

Sobre a transcendência da Monarquia republicanizada como guardiã da memória colectiva de um povo


Neste centenário de República, dramaticamente mutilada de Monarquia, sabe-me a oráculo o pensamento de José Ortega y Gasset (1883/1955).

Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica. Isso é verdade, mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor. Porque, efectivamente, a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. Seu papel não é governar, nem administrar a justiça, nem mandar o Exército. Mas nem por isso é uma instituição vazia, carente de serviço. A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar. Por isso o povo inglês, com deliberado propósito, deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação. Antes a turbulência actual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida. Deu-nos mais uma lição.
O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado, precisamente porque passou, porque lhe passou, continua existindo para ele. Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louça de seu pretérito. Este povo circula por todo o seu tempo, é verdadeiramente senhor de seus séculos, que conserva em activa posse. E isto ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro, poder existir no verdadeiro presente, já que o presente é só a presença do passado e do porvir, o lugar onde pretérito e futuro efectivamente existem.
Com as festas simbólicas da coroação, a Inglaterra opôs mais uma vez, ao método revolucionário o método da continuidade, o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz história uma luta ilustre e perene entre paralíticos e epilépticos.

José Ortega y Gasset in Rebelião de Massas

Viva a República protegida pela Monarquia






The Return Of The Giant Hogweed (1971)
Em face da estética republicana centrada numa mulher desnudada e carenciada de banho, com um seio à amostra numa época em que não existia cura para a tuberculose, tudo a necessitar de um "Manto Real" protector, sempre me meteu mais “respeito” uma mulher munida de um taco (não instrumentalizada e sem receio nem de "gigantes" nórdicos nem de "papões" latinos), vinda de outras latitudes onde a Monarquia Republicana ou a República Coroada é uma realidade intrínseca, obvia, abrange e não fracturante.

O caminho indicado não é derrubar a República, é fazer a Monarquia
PAIVA COUCEIRO (em 1921)

O adjectivo republicano pode caber-nos, na verdade, desde que lhe precisemos o sentido. Nos homens bons era forçoso reconhecer uma inegável independência republicana, aliada a uma inteira fidelidade monárquica.
ANTÓNIO SARDINHA (1887/1925)

A questão política, tal como tem sido posta, nos termos fratricidas monárquicos contra republicanos, republicanos contra monárquicos, não pode conduzir a nenhuma solução nacional,
Republicanos e monárquicos, monárquicos e republicanos-é necessário compreendê-lo e afirmá-lo!-nada existe, do que aparentemente nos separa tão importante como o que verdadeiramente nos aproxima: o mesmo acrisolado interesse pela Coisa Pública, conscientes de que praticamos um dever cívico, e a primazia que nesse sentido concordamos em dar à Política. Com a massa descolorada dos indiferentes, dos políticos, é que, nem uns, nem outros, temos afinidades.
Lamentavelmente temos vivido demasiado sob o império injusto de certas palavras fetiches.
MÁRIO SARAIVA (em 1970)



O presente post é realizado num quadro de descontextualização dos paradigmas que dominam a vida política e cultural portuguesa. Nunca me identifiquei com a dialéctica republicana e monárquica por me parecer que os conceitos são orgânicos. Têm sentido, precisamente, por estabelecerem laços continuados entre si, que é inevitável que eles se empobrecem e se anulam quando se confrontam. Quando são interpretados, isoladamente, no funeral do outro, frequentemente surgido pelo assassinato de uma das partes (um dos desportos favoritos dos republicanos castrados de monarquia é assassinarem membros de famílias régias), a demagogia primária instala-se. Sempre me pareceu o militante republicano e monárquico um minimalista que investe intelectualmente na solidão.


Para tomar um pouco de fôlego, em termos de filosofia política, fui aos meus arquivos para compensar a enxurrada de disparates que se têm ouvido neste centenário. Com coragem, em plena ditadura republicana, quando ainda se sentiam os reflexos das grandes transformações impostas pelos movimentos saídos de “Maio de 1968”, que uns privatizaram ou nacionalizaram como tendo a legitimidade de os representar, com a oportunidade intemporal rara de elaborar um manifesto que se mantém em 2010 com plena actualidade, um grupo de jovens monárquicos que nunca se identificaram como anti/republicanos punham o problema com a clareza que ainda hoje é perene volvidos, repito, 41 anos (1969/2010): (1) “Não ignoram os signatários que, para muitos portugueses, parece totalmente indiferente que o Chefe de Estado seja um Rei ou um Presidente e que, para outros, a hereditariedade do Poder supremo contraria o princípio absoluto da igualdade de direitos. Mas é exactamente para defesa da igualdade de todos os homens quanto aos direitos fundamentais, que importa garantir a existência de uma função bem diferenciada.
Colocado perante a urgência de uma reforma social e política verdadeira e integral, mas também justa e respeitadora das pessoas e das comunidades, o País há-de um dia concluir que é impossível realizar toda essa reforma de um modo habitual, harmónico e progressivo, sem rever a forma superior do Estado. Para não se reformar por um lado e deformar por outro; para não tornar a acontecer, como lei fatal, que a procura da liberdade gere a demagogia e a defesa da ordem gere a ditadura-a Nação Portuguesa há-de chamar o Rei”.


Sempre me considerei simultaneamente republicano e monárquico, parecendo tão evidente que estes conceitos podem acasalar que se não fosse a claustrofobia em que me sinto, neste centenário de uma República viúva de uma Monarquia que a acompanhou durante cerca de 800 anos, não perderia um segundo, não hipotecava um neurónio para falar deste assunto. Mas infelizmente, vendo republicanos que não sendo monárquicos defendem a República, e monárquicos que repudiando a República tomam calor a defender a Monarquia, sinto-me obrigado filosoficamente e politológicamente a dizer “umas coisas” em prol da minha consciência e sanidade mental.
Historicamente República e Monarquia sempre foram conceitos irmanados que só existem e têm operacionalidade política em conjunto. (2) "Antes da divisão fraticida-monárquicos e republicanos-quando a unidade nacional não precisava de ser invocada por tão natural que era, a Realeza conciliava-se com a República, mais exactamente, o Rei completava a República, fazia parte dela. Assim o Padre António Vieira dizia «um Rei muito republico".
Um verdadeiro republicano é necessariamente um monárquico. A procura de uma vivência republicana aponta para a necessidade da existência de uma realeza, única garante de imparcialidade, representativa da totalidade da população e vector de continuidade histórica, exercendo a magistratura da igualdade na governação. Assim, dissociar a Monarquia da República ou a República da Monarquia é um absurdo. O natural é procurar uma harmonia na qual se pode aplicar a designação de o Governo da República pelo Rei (3) " É este o título de um livro antigo escrito em 1496 por Diogo Lopes Rebelo, que fora mestre do jovem Duque de Beja, depois D. Manuel I. Pouco importa se é agora já inútil o que se dizem as suas velhas páginas. O que nos diz e sugere o seu título, isso sim, tem luminosa actualidade e flagrante oportunidade. "Não duvidamos de que bem mais do que na era de Quatrocentos. Então a República portuguesa tinha um Rei e conhecia o apogeu da sua grandeza. Hoje o Estado Republicano não é sinónimo de República. Falta-lhe o Rei".
Por estas razões o observador que aqui se encontra a reflectir só é monárquico porque é republicano, é o seu republicanismo que o conduz ao papel da Realeza (4)"a verdade-não é nenhum paradoxo!-é que pela Realeza melhor se defendem e conservam as Repúblicas. E veja-se se não é assim. Todos os Reinos europeus servem de exemplo, sem excepção. Só essas Repúblicas, tendo na suprema magistratura um Rei, conseguem manter, neste mundo oprimido e revolto dos nossos dias, a espontânea harmonia da autoridade e da liberdade; só esses Reinos conseguem ser verdadeiras Repúblicas". Com grande sentido de observação politológica Gonçalo Ribeiro Telles habituou-nos a resumir, repetidamente, este problema dizendo que “a melhor das Repúblicas é a Monarquia”.
Quanto mais avança o aperfeiçoamento institucional das liberdades republicanas mais necessária tornam a presença da instituição Real. A diferença, o antagonismo, a rivalidade, a concorrência apontam para a necessidade de uma instituição reguladora e equidistante (5) "por isso, o Rei, representa o todo, não pode ser uma parte. Nem tomar partido naquilo que represente ser por uns contra os outros, enquanto todos são ele e ele é para todos. E é assim porque só quem representa o todo pode estar acima e compreender uma parte deste".
A condução da República, a sua governação e administração conjuntural, legitima resposta ás necessidades imediatas, opináveis e onde impera a diversidade ideológica servida por protagonistas diversificados que coexistem em circulos eleitorais com vencedores e vencidos,só sobrevive com a Monarquia. A governação republicana corrente, carregada naturalmente por conflitualidade, necessita de sedimentar-se na continuidade da Magistratura Régia pacificadora (6) “ORei não administra. Não é um simples governante. É o primeiro servidor da Grei. Não foi eleito porque ainda é e sempre continuará a ser o que já foi. Só se elege o que ainda pode vir a ser de entre todas as hipóteses que podiam ter sido e não foram nem serão. Não o que é porque é. O Rei não concorre contra ninguém, portanto não está contra alguém".


Os portugueses pressentem que a desagregação continua do Estado exclusivamente republicano, instituído em 1910, está em decomposição acelerada, não responde aos presentes desafios: (7) “Num processo tão vasto de globalização e de integração, são os conceitos em que assenta o próprio Estado que estão hoje em causa. O povo vê sublimada a relevância dos restantes elementos que compõem o Estado. O território e a própria soberania perderam crescentemente importância em consequência não só da globalização, mas também da alucinante evolução tecnológica e, em especial das novas tecnologias de comunicação. É por isso imperioso que as nações consigam encontrar novos elementos de agregação da sua identidade sociocultural e é aqui que vale a pena enfatizar a relevância e modernidade da Instituição Real. Um Rei não vale, nas sociedades modernas, apenas pela sua especial isenção e supra partidarismo, somente pela continuidade, preparação e experiência que imprime ao exercício das suas funções, vale hoje de forma muito especial pelo papel que pode assumir ao nível da coesão nacional e, principalmente, como referencial histórico, cultural e efectivo na Nação. O tal novo elemento de agregação como um efeito claramente compensador das perdas inevitáveis de soberania que sobram dos processos de globalização”.
O Estado estando em crise transforma a Nação na única entidade comunitária que pode ser mantida, recuperada e reforçada. É óbvio que a Instituição Real, neste particular, é inultrapassável na capacidade de agregar uma nacionalidade que, no limite, nem necessita de Estado. (8) "Hoje o conceito de Estado está a evoluir e com ele o da sua chefia. Com o avançar do processo de integração europeia, tornar-se-á cada vez mais difícil precisar as funções do Chefe de Estado. Supremo Magistrado de um sistema jurídico que se rege por normas de direito comunitário e integra tribunais supranacionais? Comandante em Chefe de forças Armadas que participam em exércitos multinacionais? Quer se seja a favor ou contra, esta evolução é uma realidade (...)".

A grande missão dos portugueses, no Século XXI, não consiste na abolição da República mas, antes, no enriquecimento do republicanismo com a Monarquia. É o regime Monárquico que irá permitir o convívio republicano. O importante é que a República portuguesa se abra à Monarquia: (9) “para que a Democracia se aperfeiçoe e se aprofunde, servindo não só a maioria e a maioria eventual própria do sistema de alternância, mas na realidade servindo todos os grupos legítimos, todas as minorias, é urgente que a República Portuguesa se abra à Monarquia”.
Não se pode ficar indiferente aos apelos dos que têm servido Portugal na legitimidade, mesmo que legalmente o que resta do Estado português não lhe reconheça oficialmente tal tarefa (10) “Sejam quais forem as circunstâncias, tais deveres não prescrevem pois constituem a justificação essencial do Princípio que represento. A Instituição Real explica-se por uma dádiva total ao País, para além da existência ou não do Trono. Os Reis e os seus Herdeiros nascem para servir a colectividade e para amá-la, reinando ou não, em mandato natural que não cessa de obrigá-los e, todavia, deve afastá-los da competição pelo Poder. Atentos à vontade do Povo, livremente expressa, poderá caber-lhes reinar mais jamais disputar, explicam-se para unir, no Trono ou na vida mais discreta, no devotamente público ou na dedicação mais silenciosa. Se desta forma procederem, serão sempre coerentes à Realeza que detêm, independentemente do respectivo exercício".

Viva a República, venha a Realeza que a defenda.

(1) Manifesto da Renovação Portuguesa realizado em Maio de 1969.
(2) SARAIVA, Mário (1970) Razões Reais, ed. qp, Lisboa, , p. 127.
(3) SARAIVA, Mário (1970) Razões Reais, ed. qp, Lisboa, p. 130.
(4) SARAIVA, Mário (1970) Razões Reais, ed. qp, Lisboa, , p. 129.
(5) TEIXEIRA PINTO, Paulo - Ideal Real, Por uma Causa, Boletim da Real Associação do Algarve, Maio de 2000, Nº3, p. 6.
(6) TEIXEIRA PINTO, Paulo - Ideal Real, Por uma Causa, Boletim da Real Associação do Algarve, Maio de 2000, Nº3, p. 6.
(7) SOUSA-CARDOSO, António - Discurso de Encerramento do IX Congresso da Causa Real, Braga, 2002, P 12.
(8)CYMBRON, Pedro-Jornal o SEMANÁRIO, ano XVIII nº900, de 16 de Fevereiro de 2001,pág. 9.
(9) Comunicação proferida por Dom Duarte Pio ao povo português no 1 de Dezembro de 1998.
(10)Comunicação de Dom Duarte Pio de Bragança ao povo português no mês de Março de 1977.
Nota-Esta 1ª Mensagem de Sua Alteza Real (SAR) o Senhor Duque de Bragança intitulada “Ao Povo Português. Aos povos dos Novos Países de Expressão Portuguesa. Às Comunidades de Raiz Lusa no Mundo Inteiro”, tem a importância de ter sido a primeira vez em que Dom Duarte Pio se assumiu como sucessor ao trono de seu Pai: “encontrei-me investido na Chefia da Casa de Bragança, na Representação do Princípio Monárquico, sobre o qual a Nação Portuguesa se organizou, consolidou e desenvolveu, projectando no Mundo benefícios e valores indiscutíveis”.

Volatilidade de conceitos




Fiquei perplexo com o facto de Lady Gaga, ou melhor Stefani Joanne Angelina Germanotta, nascida em 1986, se encontrar entre as 100 figuras mais influentes do Mundo e ocupar o 4º lugar do ranking dos artistas mais bem pagos, arrecadando lucros de 62 milhões de dólares num ano. Receber 8 prémios em 13 em disputa este ano, pela MTV, até dói num Mundo preocupado por uma distribuição mais equitativa da riqueza, dos recursos e dos talentos. 2 Grammy Awards em 2010 também engrossam as “condecorações”.
Com um álbum inicial,somente em 2008, é sem dúvida notável um sucesso apoiado em músicas ritmadas, num contexto criativo inegável. Os conteúdos dos temas, desgraçadamente, estão contaminados pelo drama da ignorância e irresponsabilidade, surgindo conceitos desconexados do seu património próprio e em clara violação da sua vocação taxonómica para uma caracterização de vivências humanas essenciais. De forma baralhada, não balizada SEXO, SEDUÇÃO, ATRACÇÃO, PAIXÃO e AMOR surgem indistintamente em letras, com um tratamento tão primário, desbaratando um património comportamental humano que é rico por ser plural e gerir todas estas vertentes não as considerando sinónimas de uma mesma realidade. Pondo de parte sexo explícito que nos remete para o universo dos instintos que felizmente, apesar dos artificialismos de todas as “modernidades”, partilhamos com muitíssimas espécies, concentremo-nos nos outros conceitos tão imaturamente tratados. Se tivéssemos no campo meramente lúdico não me faria nenhuma confusão, mas partindo de quem visa ter influência e protagonismo mundial magoa-me um pouco. No auge do marxismo tínhamos os “educadores da classe operária” agora no culturalismo consumista temos os “docentes da modernidade comportamental”.

Na SEDUÇÃO mantemo-nos nós próprios, na nossa esfera, encontrando satisfação individualizada. Estamos na “VONTADE PESSOAL”. No AMOR estamos na “VONTADE PARTILHADA”, atendendo a necessidades e anseios recíprocas ou, inclusivamente, exógenos a nós próprios. Com isto não se está a dizer que não é importante o papel da SEDUÇÃO, apenas que ele não se equivale ao papel que o AMOR desempenha na vida humana. Só no AMOR para além do “eu” e do “outro”, o que já não é mau, existe um “nós”, consciência de um laço específico que não existe para além da singularidade dos seus constituintes. Não estamos em matérias nada simples. A obra de Sade, que no início deste post foi apropriada singularmente com a música que me parece mais genial do seu vasto reportório (“somebody already broke my heart”), focando estas matérias, tem-se mantido uma base pedagógica soberba. Não foi ela que, de forma mestra, cantou sobre os riscos do simplismo e da vulgaridade em que pode mergulhar o Amor em “No Ordinary Lave”?

AMOR sem PAIXÃO é impossível, mas existe PAIXÃO sem AMOR. O AMOR acaba por estar num patamar superior à PAIXÃO pela simples razão que um sentimento é sempre superior a uma emoção. Por outras palavras é sempre superior conseguir transformar uma EMOÇÃO (PAIXÃO) num SENTIMENTO (AMOR). De uma outra forma, no AMOR existe intelectualização da PAIXÃO que por sua vez é uma selecção intuitiva da ATRACÇÃO. Uma vez mais tudo é útil mas não quer dizer que seja a mesma “coisa”, traduzindo duplicações do mesmo. A PAIXÃO não é nada desprezível, dado exactamente o relevante papel que desempenha na filtragem selectiva da ATRACÇÃO.

Se conviver com o AMOR é algo complexo, com o DESAMOR não o é menos. É uma área sensível onde o carácter e educação dos sujeitos envolvidos vêm, normalmente, ao de cima. São frequentes as situações justificativas, desculpabilizantes, mais lamentáveis as violências passionais, as retaliações e ódios (não esquecendo aqui que o pior dos ódios é a crueldade) com que a temática é tratada de forma até banalizada. Com quatro conceitos compreende-se o fenómeno. Saltar do fascínio para a decepção nas relações humanas tem dois passos sequenciais. No primeiro vigora o cepticismo (ficamos pragmáticos) no segundo domina a desconfiança (ficamos arrependidos). Está mais do que reunida matéria-prima para o AMOR passar a DESAMOR, aqui apresentado, muito simplisticamente, como uma linha de comboio com quatro estações. Sendo preciso restabelecer sem magoar, limpar a “pele” sem “tatuar”. Sade, neste particular, em prosa e em termos sonoros põe bem o problema na música Skin num Álbum que, muito injustamente, não teve o merecimento público este ano enquanto brilham as “lady´s Gagas”.

AMOR -> CEPTICISMO -> DESCONFIANÇA -> DESAMOR
Fascínio -> Pragmatismo -> Arrependimento -> Decepção