No contexto da globalização existem mutações sociológicas em que comunidades religiosas são sujeitas a pressões identitárias entre os seus «localismos territorializados» tradicionais e os «localismos desterritorializados» em diáspora, desenvolvidos voluntariamente (fluxos de emigração) ou sobre pressão (fluxos de exilados).
Os cristãos árabes fornecem-nos abundantes exemplos desta natureza e sempre me suscitaram particular fascínio. O que se passa no Iraque deve ser motivo de reflexão. Circunscrevendo ao universo católico árabe, o mais significativo na especificidade iraquiana na forma do Patriarcado Caldeu, assiste-se a uma erosão da sua presença na vertente do «localismo» histórico e numa tentativa de afirmação crescente na diáspora permitida.
Incompreendidos por ignorância, apatia ou simples desinteresse mediático são esquecidos, paradoxalmente, nas sociedades que desenvolveram o multiculturalismo. São necessárias carnificinas como a ocorrida na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Bagdad, no passado dia 31 de Outubro, para garantirem uma audiência mínima. Onde habitam, apanhadas pelo fundamentalismo religioso, são presa fácil para descarregar frustrações.
No caso do Iraque, oportunistamente por parte dos que querem transformar o país num aglomerado homogéneo étnico/religioso, realidade que nunca o foi, vêem-se transformar no bode expiatório, num alvo fácil, num sector colaboracionista, de “forças invasoras”. Estas, é sabido sem grande esforço intelectual, formam uma coligação precipitada, descabida e desproporcionada que destruiu uma sociedade que, sem dúvida mergulhada num autoritarismo atroz, tinha uma estrutura societária em que as matérias religiosas gozavam de liberdade.
Apanhados no meio de dois produtos expressivos da globalização, em ambos os casos com protagonistas exógenos, no caso do fundamentalismo islâmico (infiltrados) no caso dos invasores (transportados) a presença multissecular cristã iria ficar sobre ameaça extrema. Para ironia macabra da Igreja Católica Caldeia (também designada por Melquita do Oriente), a grande desestabilização veio de uma iniciativa de uma potência que esteve na base do rastilho do fundamentalismo islâmico em muitas partes do Mundo e, internamente, se debate com um fundamentalismo protestante.
A Equiparquia Metropolitana Caldeia de Bagdad tinha 325,000 crentes em 1990, apenas 145,000 no ano 2008. Menos de metade em 18 anos (Fonte – Annuario Pontifício – The Eastern Catholic Churches/2008). Não é um genocídio, mas é um etnocídio o que está a acontecer aos caldeus.
Pensar nos Esquecidos
Sobre a transcendência da Monarquia republicanizada como guardiã da memória colectiva de um povo

Neste centenário de República, dramaticamente mutilada de Monarquia, sabe-me a oráculo o pensamento de José Ortega y Gasset (1883/1955).
Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica. Isso é verdade, mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor. Porque, efectivamente, a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. Seu papel não é governar, nem administrar a justiça, nem mandar o Exército. Mas nem por isso é uma instituição vazia, carente de serviço. A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar. Por isso o povo inglês, com deliberado propósito, deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação. Antes a turbulência actual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida. Deu-nos mais uma lição.
O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado, precisamente porque passou, porque lhe passou, continua existindo para ele. Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louça de seu pretérito. Este povo circula por todo o seu tempo, é verdadeiramente senhor de seus séculos, que conserva em activa posse. E isto ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro, poder existir no verdadeiro presente, já que o presente é só a presença do passado e do porvir, o lugar onde pretérito e futuro efectivamente existem.
Com as festas simbólicas da coroação, a Inglaterra opôs mais uma vez, ao método revolucionário o método da continuidade, o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz história uma luta ilustre e perene entre paralíticos e epilépticos.
José Ortega y Gasset in Rebelião de Massas
Viva a República protegida pela Monarquia
The Return Of The Giant Hogweed (1971)
Em face da estética republicana centrada numa mulher desnudada e carenciada de banho, com um seio à amostra numa época em que não existia cura para a tuberculose, tudo a necessitar de um "Manto Real" protector, sempre me meteu mais “respeito” uma mulher munida de um taco (não instrumentalizada e sem receio nem de "gigantes" nórdicos nem de "papões" latinos), vinda de outras latitudes onde a Monarquia Republicana ou a República Coroada é uma realidade intrínseca, obvia, abrange e não fracturante.
O caminho indicado não é derrubar a República, é fazer a Monarquia
PAIVA COUCEIRO (em 1921)
O adjectivo republicano pode caber-nos, na verdade, desde que lhe precisemos o sentido. Nos homens bons era forçoso reconhecer uma inegável independência republicana, aliada a uma inteira fidelidade monárquica.
ANTÓNIO SARDINHA (1887/1925)
A questão política, tal como tem sido posta, nos termos fratricidas monárquicos contra republicanos, republicanos contra monárquicos, não pode conduzir a nenhuma solução nacional,
Republicanos e monárquicos, monárquicos e republicanos-é necessário compreendê-lo e afirmá-lo!-nada existe, do que aparentemente nos separa tão importante como o que verdadeiramente nos aproxima: o mesmo acrisolado interesse pela Coisa Pública, conscientes de que praticamos um dever cívico, e a primazia que nesse sentido concordamos em dar à Política. Com a massa descolorada dos indiferentes, dos políticos, é que, nem uns, nem outros, temos afinidades.
Lamentavelmente temos vivido demasiado sob o império injusto de certas palavras fetiches.
MÁRIO SARAIVA (em 1970)
O presente post é realizado num quadro de descontextualização dos paradigmas que dominam a vida política e cultural portuguesa. Nunca me identifiquei com a dialéctica republicana e monárquica por me parecer que os conceitos são orgânicos. Têm sentido, precisamente, por estabelecerem laços continuados entre si, que é inevitável que eles se empobrecem e se anulam quando se confrontam. Quando são interpretados, isoladamente, no funeral do outro, frequentemente surgido pelo assassinato de uma das partes (um dos desportos favoritos dos republicanos castrados de monarquia é assassinarem membros de famílias régias), a demagogia primária instala-se. Sempre me pareceu o militante republicano e monárquico um minimalista que investe intelectualmente na solidão.
Para tomar um pouco de fôlego, em termos de filosofia política, fui aos meus arquivos para compensar a enxurrada de disparates que se têm ouvido neste centenário. Com coragem, em plena ditadura republicana, quando ainda se sentiam os reflexos das grandes transformações impostas pelos movimentos saídos de “Maio de 1968”, que uns privatizaram ou nacionalizaram como tendo a legitimidade de os representar, com a oportunidade intemporal rara de elaborar um manifesto que se mantém em 2010 com plena actualidade, um grupo de jovens monárquicos que nunca se identificaram como anti/republicanos punham o problema com a clareza que ainda hoje é perene volvidos, repito, 41 anos (1969/2010): (1) “Não ignoram os signatários que, para muitos portugueses, parece totalmente indiferente que o Chefe de Estado seja um Rei ou um Presidente e que, para outros, a hereditariedade do Poder supremo contraria o princípio absoluto da igualdade de direitos. Mas é exactamente para defesa da igualdade de todos os homens quanto aos direitos fundamentais, que importa garantir a existência de uma função bem diferenciada.
Colocado perante a urgência de uma reforma social e política verdadeira e integral, mas também justa e respeitadora das pessoas e das comunidades, o País há-de um dia concluir que é impossível realizar toda essa reforma de um modo habitual, harmónico e progressivo, sem rever a forma superior do Estado. Para não se reformar por um lado e deformar por outro; para não tornar a acontecer, como lei fatal, que a procura da liberdade gere a demagogia e a defesa da ordem gere a ditadura-a Nação Portuguesa há-de chamar o Rei”.
Sempre me considerei simultaneamente republicano e monárquico, parecendo tão evidente que estes conceitos podem acasalar que se não fosse a claustrofobia em que me sinto, neste centenário de uma República viúva de uma Monarquia que a acompanhou durante cerca de 800 anos, não perderia um segundo, não hipotecava um neurónio para falar deste assunto. Mas infelizmente, vendo republicanos que não sendo monárquicos defendem a República, e monárquicos que repudiando a República tomam calor a defender a Monarquia, sinto-me obrigado filosoficamente e politológicamente a dizer “umas coisas” em prol da minha consciência e sanidade mental.
Historicamente República e Monarquia sempre foram conceitos irmanados que só existem e têm operacionalidade política em conjunto. (2) "Antes da divisão fraticida-monárquicos e republicanos-quando a unidade nacional não precisava de ser invocada por tão natural que era, a Realeza conciliava-se com a República, mais exactamente, o Rei completava a República, fazia parte dela. Assim o Padre António Vieira dizia «um Rei muito republico".
Um verdadeiro republicano é necessariamente um monárquico. A procura de uma vivência republicana aponta para a necessidade da existência de uma realeza, única garante de imparcialidade, representativa da totalidade da população e vector de continuidade histórica, exercendo a magistratura da igualdade na governação. Assim, dissociar a Monarquia da República ou a República da Monarquia é um absurdo. O natural é procurar uma harmonia na qual se pode aplicar a designação de o Governo da República pelo Rei (3) "
Quanto mais avança o aperfeiçoamento institucional das liberdades republicanas mais necessária tornam a presença da instituição Real. A diferença, o antagonismo, a rivalidade, a concorrência apontam para a necessidade de uma instituição reguladora e equidistante (5) "por isso, o Rei, representa o todo, não pode ser uma parte. Nem tomar partido naquilo que represente ser por uns contra os outros, enquanto todos são ele e ele é para todos. E é assim porque só quem representa o todo pode estar acima e compreender uma parte deste".
A condução da República, a sua governação e administração conjuntural, legitima resposta ás necessidades imediatas, opináveis e onde impera a diversidade ideológica servida por protagonistas diversificados que coexistem em circulos eleitorais com vencedores e vencidos,só sobrevive com a Monarquia. A governação republicana corrente, carregada naturalmente por conflitualidade, necessita de sedimentar-se na continuidade da Magistratura Régia pacificadora (6) “ORei não administra. Não é um simples governante. É o primeiro servidor da Grei. Não foi eleito porque ainda é e sempre continuará a ser o que já foi. Só se elege o que ainda pode vir a ser de entre todas as hipóteses que podiam ter sido e não foram nem serão. Não o que é porque é. O Rei não concorre contra ninguém, portanto não está contra alguém".
Os portugueses pressentem que a desagregação continua do Estado exclusivamente republicano, instituído em 1910, está em decomposição acelerada, não responde aos presentes desafios: (7) “Num processo tão vasto de globalização e de integração, são os conceitos em que assenta o próprio Estado que estão hoje em causa. O povo vê sublimada a relevância dos restantes elementos que compõem o Estado. O território e a própria soberania perderam crescentemente importância em consequência não só da globalização, mas também da alucinante evolução tecnológica e, em especial das novas tecnologias de comunicação. É por isso imperioso que as nações consigam encontrar novos elementos de agregação da sua identidade sociocultural e é aqui que vale a pena enfatizar a relevância e modernidade da Instituição Real. Um Rei não vale, nas sociedades modernas, apenas pela sua especial isenção e supra partidarismo, somente pela continuidade, preparação e experiência que imprime ao exercício das suas funções, vale hoje de forma muito especial pelo papel que pode assumir ao nível da coesão nacional e, principalmente, como referencial histórico, cultural e efectivo na Nação. O tal novo elemento de agregação como um efeito claramente compensador das perdas inevitáveis de soberania que sobram dos processos de globalização”.
O Estado estando em crise transforma a Nação na única entidade comunitária que pode ser mantida, recuperada e reforçada. É óbvio que a Instituição Real, neste particular, é inultrapassável na capacidade de agregar uma nacionalidade que, no limite, nem necessita de Estado. (8) "Hoje o conceito de Estado está a evoluir e com ele o da sua chefia. Com o avançar do processo de integração europeia, tornar-se-á cada vez mais difícil precisar as funções do Chefe de Estado. Supremo Magistrado de um sistema jurídico que se rege por normas de direito comunitário e integra tribunais supranacionais? Comandante em Chefe de forças Armadas que participam em exércitos multinacionais? Quer se seja a favor ou contra, esta evolução é uma realidade (...)".
A grande missão dos portugueses, no Século XXI, não consiste na abolição da República mas, antes, no enriquecimento do republicanismo com a Monarquia. É o regime Monárquico que irá permitir o convívio republicano. O importante é que a República portuguesa se abra à Monarquia: (9) “para que a Democracia se aperfeiçoe e se aprofunde, servindo não só a maioria e a maioria eventual própria do sistema de alternância, mas na realidade servindo todos os grupos legítimos, todas as minorias, é urgente que a República Portuguesa se abra à Monarquia”.
Não se pode ficar indiferente aos apelos dos que têm servido Portugal na legitimidade, mesmo que legalmente o que resta do Estado português não lhe reconheça oficialmente tal tarefa (10) “Sejam quais forem as circunstâncias, tais deveres não prescrevem pois constituem a justificação essencial do Princípio que represento. A Instituição Real explica-se por uma dádiva total ao País, para além da existência ou não do Trono. Os Reis e os seus Herdeiros nascem para servir a colectividade e para amá-la, reinando ou não, em mandato natural que não cessa de obrigá-los e, todavia, deve afastá-los da competição pelo Poder. Atentos à vontade do Povo, livremente expressa, poderá caber-lhes reinar mais jamais disputar, explicam-se para unir, no Trono ou na vida mais discreta, no devotamente público ou na dedicação mais silenciosa. Se desta forma procederem, serão sempre coerentes à Realeza que detêm, independentemente do respectivo exercício".
Viva a República, venha a Realeza que a defenda.
(1) Manifesto da Renovação Portuguesa realizado em Maio de 1969.
(2) SARAIVA, Mário (1970) Razões Reais, ed. qp, Lisboa, , p. 127.
(3) SARAIVA, Mário (1970) Razões Reais, ed. qp, Lisboa, p. 130.
(4) SARAIVA, Mário (1970) Razões Reais, ed. qp, Lisboa, , p. 129.
(5) TEIXEIRA PINTO, Paulo - Ideal Real, Por uma Causa, Boletim da Real Associação do Algarve, Maio de 2000, Nº3, p. 6.
(6) TEIXEIRA PINTO, Paulo - Ideal Real, Por uma Causa, Boletim da Real Associação do Algarve, Maio de 2000, Nº3, p. 6.
(7) SOUSA-CARDOSO, António - Discurso de Encerramento do IX Congresso da Causa Real, Braga, 2002, P 12.
(8)CYMBRON, Pedro-Jornal o SEMANÁRIO, ano XVIII nº900, de 16 de Fevereiro de 2001,pág. 9.
(9) Comunicação proferida por Dom Duarte Pio ao povo português no 1 de Dezembro de 1998.
(10)Comunicação de Dom Duarte Pio de Bragança ao povo português no mês de Março de 1977.
Nota-Esta 1ª Mensagem de Sua Alteza Real (SAR) o Senhor Duque de Bragança intitulada “Ao Povo Português. Aos povos dos Novos Países de Expressão Portuguesa. Às Comunidades de Raiz Lusa no Mundo Inteiro”, tem a importância de ter sido a primeira vez em que Dom Duarte Pio se assumiu como sucessor ao trono de seu Pai: “encontrei-me investido na Chefia da Casa de Bragança, na Representação do Princípio Monárquico, sobre o qual a Nação Portuguesa se organizou, consolidou e desenvolveu, projectando no Mundo benefícios e valores indiscutíveis”.
Volatilidade de conceitos
Fiquei perplexo com o facto de Lady Gaga, ou melhor Stefani Joanne Angelina Germanotta, nascida em 1986, se encontrar entre as 100 figuras mais influentes do Mundo e ocupar o 4º lugar do ranking dos artistas mais bem pagos, arrecadando lucros de 62 milhões de dólares num ano. Receber 8 prémios em 13 em disputa este ano, pela MTV, até dói num Mundo preocupado por uma distribuição mais equitativa da riqueza, dos recursos e dos talentos. 2 Grammy Awards em 2010 também engrossam as “condecorações”.
Com um álbum inicial,somente em 2008, é sem dúvida notável um sucesso apoiado em músicas ritmadas, num contexto criativo inegável. Os conteúdos dos temas, desgraçadamente, estão contaminados pelo drama da ignorância e irresponsabilidade, surgindo conceitos desconexados do seu património próprio e em clara violação da sua vocação taxonómica para uma caracterização de vivências humanas essenciais. De forma baralhada, não balizada SEXO, SEDUÇÃO, ATRACÇÃO, PAIXÃO e AMOR surgem indistintamente em letras, com um tratamento tão primário, desbaratando um património comportamental humano que é rico por ser plural e gerir todas estas vertentes não as considerando sinónimas de uma mesma realidade. Pondo de parte sexo explícito que nos remete para o universo dos instintos que felizmente, apesar dos artificialismos de todas as “modernidades”, partilhamos com muitíssimas espécies, concentremo-nos nos outros conceitos tão imaturamente tratados. Se tivéssemos no campo meramente lúdico não me faria nenhuma confusão, mas partindo de quem visa ter influência e protagonismo mundial magoa-me um pouco. No auge do marxismo tínhamos os “educadores da classe operária” agora no culturalismo consumista temos os “docentes da modernidade comportamental”.
Na SEDUÇÃO mantemo-nos nós próprios, na nossa esfera, encontrando satisfação individualizada. Estamos na “VONTADE PESSOAL”. No AMOR estamos na “VONTADE PARTILHADA”, atendendo a necessidades e anseios recíprocas ou, inclusivamente, exógenos a nós próprios. Com isto não se está a dizer que não é importante o papel da SEDUÇÃO, apenas que ele não se equivale ao papel que o AMOR desempenha na vida humana. Só no AMOR para além do “eu” e do “outro”, o que já não é mau, existe um “nós”, consciência de um laço específico que não existe para além da singularidade dos seus constituintes. Não estamos em matérias nada simples. A obra de Sade, que no início deste post foi apropriada singularmente com a música que me parece mais genial do seu vasto reportório (“somebody already broke my heart”), focando estas matérias, tem-se mantido uma base pedagógica soberba. Não foi ela que, de forma mestra, cantou sobre os riscos do simplismo e da vulgaridade em que pode mergulhar o Amor em “No Ordinary Lave”?
AMOR sem PAIXÃO é impossível, mas existe PAIXÃO sem AMOR. O AMOR acaba por estar num patamar superior à PAIXÃO pela simples razão que um sentimento é sempre superior a uma emoção. Por outras palavras é sempre superior conseguir transformar uma EMOÇÃO (PAIXÃO) num SENTIMENTO (AMOR). De uma outra forma, no AMOR existe intelectualização da PAIXÃO que por sua vez é uma selecção intuitiva da ATRACÇÃO. Uma vez mais tudo é útil mas não quer dizer que seja a mesma “coisa”, traduzindo duplicações do mesmo. A PAIXÃO não é nada desprezível, dado exactamente o relevante papel que desempenha na filtragem selectiva da ATRACÇÃO.
Se conviver com o AMOR é algo complexo, com o DESAMOR não o é menos. É uma área sensível onde o carácter e educação dos sujeitos envolvidos vêm, normalmente, ao de cima. São frequentes as situações justificativas, desculpabilizantes, mais lamentáveis as violências passionais, as retaliações e ódios (não esquecendo aqui que o pior dos ódios é a crueldade) com que a temática é tratada de forma até banalizada. Com quatro conceitos compreende-se o fenómeno. Saltar do fascínio para a decepção nas relações humanas tem dois passos sequenciais. No primeiro vigora o cepticismo (ficamos pragmáticos) no segundo domina a desconfiança (ficamos arrependidos). Está mais do que reunida matéria-prima para o AMOR passar a DESAMOR, aqui apresentado, muito simplisticamente, como uma linha de comboio com quatro estações. Sendo preciso restabelecer sem magoar, limpar a “pele” sem “tatuar”. Sade, neste particular, em prosa e em termos sonoros põe bem o problema na música Skin num Álbum que, muito injustamente, não teve o merecimento público este ano enquanto brilham as “lady´s Gagas”.
AMOR -> CEPTICISMO -> DESCONFIANÇA -> DESAMOR
Fascínio -> Pragmatismo -> Arrependimento -> Decepção
Ausências que ficam
Soube pela comunicação social da morte de Frederico Valsassina (1930/2010), ocorrida no passado mês de Maio. Parte da minha existência fundamental, na qual se inclui toda a minha adolescência (do 7ª ao 12º ano), passou-se em termos escolares no Colégio que dirigia com denominação retirada do seu apelido, dado tratar-se de um projecto educativo familiar iniciado no final do século XIX. Fala-se muito de “LIDERANÇA”, do papel do “EXEMPLO”, da necessidade de respeitar as “DIFERENÇAS” ou de promover “DIVERSIDADES” na actualidade. Da sua boca nunca vi tal linguagem, não que não a tivesse como Homem culto que era e bem capaz de a utilizar nos anos “70” e “80” do século XX, por antecipação do que agora se transformou em formalismo retórico. A verdade, como acontece com os autênticos praticantes de QUALIDADES HUMANAS quando as possuem alicerçadas em VALORES que cimentam o seu CARACTER, exercia-as sem esforço, com a pedagogia de quem retirava mais prazer dessa forma do que se porventura se comportasse de outro modo. Estando atento, com o seu convívio, aprendia-se a conjugar a EFICIÊNCIA com a DISCRIÇÃO, fazendo desta relação uma equilibrada CONDUTA HUMANA agradável e eficaz nas RELAÇÔES HUMANAS.
O Colégio Valsassina era um exemplo de TOLERÂNCIA e respeito pela DIFERENÇA. Recordo-me de numa mesma turma ter por colegas tanto um filho do “Melo Antunes”, do “Almeida Santos” do “Cardoso e Cunha”, como de um antigo director da DGS, de muitos quadros empresariais que regressavam do Brasil depois de terminarem as ocupações e nacionalizações, gerando-se um convívio em que o Colégio não privilegiava nem menosprezava ninguém.
A DISPONIBILIDADE foi algo que vi praticar de forma singular. Sou testemunha de assistir a serem interrompidos os seus momentos de férias, para aconselhar um aluno a realizar uma melhoria de nota, pedir uma revisão de provas ou aconselhar um método de estudo para um exame específico. Era um mestre na JUSTIÇA COMUTATIVA. Apesar de proprietário do colégio, agia como mais um professor. Licenciado em matemática, quando o tempo permitia, substituia qualquer docente com esta disciplina num espírito de camaradagem e companheirismo profissional que a maioria das pessoas, mesmo quando obrigadas num plano normativo, não conseguem desempenhar. Sabia DELEGAR, criando um corpo de professores habilitados para as mais variadas tarefas, numa atitude rara oposta à desconfiança, ao receio de perder protagonismo tão característico de tantos ambientes.
Talvez com o seu exemplo, nunca tenha descartado a possibilidade de vir a ser professor. O tempo passado no seu estabelecimento de ensino, os seus reflexos na minha vida (dos 12 aos 18 anos), acumulados com o convívio mais recente como profissional noutros centros de ensino e com outra população escolar estimulam-me musicalmente a ouvir estas duas músicas postas no início e término deste post.
Mentira ou Jactância?
Nota: CAMEL - Música For Today do Álbum A Nod And a Wink (2002)
Estão na moda, por motivos iminentemente mediáticos, os “casos de justiça”, que envolvem o apuramento da verdade. Uma pessoa verdadeira é, antes de mais, alguém simples, transparente e rápida a interpretar ou a contar um acontecimento. Aristóteles (384/322 ac) de forma sintética deixou esta feliz definição: “É próprio da verdade que cada um diga de si mesmo, nem de mais nem de menos”. A verdade é uma composição de veracidade com sinceridade. No fundo ela desenvolve-se com a Humildade.
A verdade pode ser negada por diversas vias. Ou melhor dizendo, por se tratar de uma capacidade humana, quem não é verdadeiro pode ser mentiroso, simulador, hipócrita ou jactante. Habitualmente os mais rústicos são simplesmente mentirosos, os mais dotados desenvolveram proezas nos escalões mais elevados.
Faltar à verdade é frequente em situações em que se omite, se exagera, se inventa numa base possível como o boato. Muitas vezes os envolvidos no seu uso têm inseguranças variadas, receios das consequências de se ser verdadeiro. Nestas situações não se é imparcial, sincero, mas pode não ser produzida uma falsidade, não existem vítimas molestadas pelo seu comportamento. Aqui existe uma divergência notória no pensamento ocidental entre Immanuel Kant (1724/1804) e Bento/Baruch de Espinosa (1632/1677). Eu aproximo-me, neste particular da mentira, mais de Espinosa, mas se tivesse a meditar sobre a humildade a minha inclinação seria kantiana.
Na “verdade” a “mentira” pode ser necessária. Desde muito novo me marcou um episódio que a minha irmã mais velha me contava, relativa ao seu orientador de doutoramento, o psicanalista e professor universitário parisiense Serge Lebovisi (1915/2000). Dizia ele que o seu pai quando foi surpreendido pela Gestapo estando acompanhado pela mulher, ao ser interrogado e antes de ser levado sem mais voltar, indicou estar acompanhado por uma amante. Com a mentira salvou a mulher? Se fosse totalmente verdadeiro tinha-a condenado? Este é o sentido correcto dado por Espinosa que face à sobrevivência, à resistência não tem dúvida que mentir é legítimo até porque veracidade não é ingenuidade. Para Kant a verdade é uma realidade absoluta, válida em qualquer circunstância, inteiramente incondicional. No limite fica-se com a ideia que se albergarmos um amigo, injustamente perseguido, se perguntarem por ele teríamos a obrigação de o denunciar para não faltar à verdade.
O maior dano da mentira reside nos seus efeitos colaterais onde facilmente existem vítimas e acumulam-se prejuízos. Como, precisamente, é quase impossível mentir-mos em estado de inocência é que esta deve ser evitada ou banida da nossa conduta. Jacques Rousseau (1712/1778) filósofo que, habitualmente, não é presença na minha mesa-de-cabeceira, afirma assertivamente: “Proferir afirmações falsas só é mentir quando existe intenção de enganar, e mesmo essa intenção, longe de se aliar sempre à de prejudicar, tem por vezes um objectivo oposto. Todavia, para tornar inocente uma mentira, não basta que a intenção de prejudicar não seja expressa, é necessário também ter a certeza de que o erro em que se induz aqueles a quem se fala não poderá prejudicá-los a eles nem a ninguém, seja de que maneira for. É raro e difícil ter-se essa certeza e, por isso, é difícil e raro que uma mentira seja perfeitamente inocente”.
Quando alguém que mente tem capacidade de fingir, disfarçar e ocultar é um dissimulador. Por isso dissimular é um refinamento da mentira. É uma subtil mentira onde não se deixa aparecer ou manifestar a verdade, capacidade de encobrir, Voltaire (1694/177) terá dito que dissimular é a virtude “do Rei e da Camareira”.
A hipocrisia está, ainda, num patamar superior, porque só um grupo reduzido de pessoas mentirosas e dissimuladoras conseguem aparentar, representando papéis fingindo o que se é, o que se sabe ou o que se tem. Só quem se sabe conduzir como “actor” consegue fingir tal coisa, por isso é que hipócrita não é mais do que “actor” em Grego "hupokrisis” ou em latim "hypocrisis".
Na posse de dotes retirados da mentira, da dissimulação e da hipocrisia só resta o domínio da jactância. O jactante é normalmente arrogante, suficientemente inteligente para no relacionamento externo, genérico apresentar-se como humilde e na intimidade gabarola. A jactância é o estado por excelência do homem público com sucesso nas sociedades actuais a caminho da fragmentação social e falência financeira. Normalmente começou a sua vida pública como vanguardista dos descamisados, oprimidos e marginalizados - o número de ex-sindicalistas e membros de formações partidárias tidas como defensoras dos explorados é numeroso - para acabar em cargos desproporcionados no tocante a remunerações e privilégios, responsáveis por um agravamento das desigualdades sociais que, na denúncia passada, estiveram na base da sua ascensão social. Outros correligionários, em rotativismo potestativo, apenas por inveja de não terem atingido tal projecção, na maior parte das vezes não abandonando a ideia de que lá chegarão, fazem o papel de denunciadores com o conceito moralista de “escândalo” utilizado em proporções que, no universo Teológico antes das “reformas”, se descrevia como “bradando aos Céus”.
No meio disto tenho pena e receio das vivências actuais que percorrem todas as sociedades, conduzidas mais pela jactância do que pela mentira. Um mentiroso apanha-se sempre, um jactante nem sempre. Para apanhar o mentiroso, que normalmente tem a patologia que é dissimulador, hipócrita e jactante sem o ser, basta alimentar o seu narcisismo. Dizia Arthur Schopenhauer (1788/1860) sobre a estratégia de apanhar uma mentira: “Se desconfiarmos que alguém mente, finjamos crença: ele há-de tornar-se ousado, mentirá com mais vigor, sendo desmascarado”. Problema mesmo é que não temos a sorte de, apenas, convivermos com mentirosos.
Um vulcão pode desencadear memórias
http://www.boston.com/bigpicture/2010/04/more_from_eyjafjallajokull.html
http://www.youtube.com/watch?v=FJO8kcZdfQM
Este Álbum calha bem em ser recordado em vésperas do 36º aniversário do “25 de Abril” de 1974. Portugal tinha saído da orgia revolucionária em Novembro de 1975. Muitos finalistas liceais, do então 7º ano lectivo de 1975/1976, cansados de terem vivido, momentaneamente, nas suas vidas com Moscovo, Pequim e até Tirana e Havana como novas “Jerusaléns”, organizavam viagens para capitais cosmopolitas do “mundo ocidental”. Tive a sorte de uma das minhas irmãs mais velhas ter ido a Londres, neste contexto, regressando trazendo na bagagem este Álbum, numa altura em que ele era uma pura raridade. A faixa Squonk é a minha preferida.
http://www.youtube.com/watch?v=KTpE5KrUCGA&feature=related
O que é uma pessoa interessante?
Viver não basta ao Homem. Este deseja existir (projectar-se de forma singular para fora de si), munido da sua essência (explorando o que tem de intimo dentro de si). Aqueles que procuram sentido para as suas reflexões e acções, tomando consciência que a sua vida e existência é transitória e está rodeada de coisas efémeras, peregrinam.
A peregrinação é fundamental ao homem, pois ela traduz o sentido de caminhada, a consciencialização do que se fez, falta fazer, não se deve fazer ou não se devia ter feito. Um sentido entre o que se alcançou e ainda falta alcançar. É uma insatisfação salutar, um estímulo ao desejo de não nos contentarmos com o que foi feito.
O peregrino, porque é caminhante, tem pouco apelo ao desnecessário. Libertado do supérfluo e agarrado ao essencial está mais capacitado para encontrar pistas satisfatórias quer para a sua vida, quer para a sua existência.
TEMPO. Realidade traiçoeira
Sempre achei o TEMPO, e a forma como ele é usado, dos mistérios mais refinados. Medir sobre este conceito é das funções mais complexas. Desde logo do ponto de vista quantitativo e qualitativo podemos ter percepções diversas. Vejamos para sermos mais inteligíveis.
Matematicamente o século XIX começou no dia 1 de Janeiro de 1801 e terminou em 31 de Dezembro de 1900, o século XX surgiu no primeiro dia do ano de 1901 e terminou, somente, no final de Dezembro de 2000, apesar dos estrondosos festejos, errados, um ano antes que arrastaram, em falácia, o próprio prestígio do fim e surgimento de um novo milénio. Neste momento, em 2010, ainda não completamos o fim da primeira década do século XXI.
Tudo o que se acaba de dizer, no campo da actividade humana, não serve para medir o efeito do TEMPO nas organizações sociais. Por essa razão só me sei orientar da seguinte forma:
-Século XIX: Teve o seu início em 1815 com o Congresso de Viena (1814/15) e terminou com o desfecho da I Guerra Mundial (1914/1918). Num certo sentido podemos dizer que o século XX teve um parto antecipado com a revolução bolchevique de 1917. Estamos a falar de 104 anos (1815/1918).
-Século XX: Do Fim da I Guerra Mundial até ao Término da URSS em 1991. Também aqui podemos dizer que o século XX nasceu prematuro com a queda do muro de Berlim em 1989. Temos 73 anos (1918/1991).
-Século XXI: Começou, indefinido, em 1991 e teve uma clara afirmação com o 11 de Setembro de 2001. De momento parece-me que tem 19 anos.
Em politologia a questão complica-se, normalmente, um pouco mais. O TEMPO provoca teorias, doutrinas e ideologias em redes complexas de famílias politicas que vão por os homens a desfrutá-lo de forma diversa. Os que têm preferência pelo TEMPO passado tendem a ser tradicionalistas, os que privilegiam o TEMPO presente a ser conservadores, os que se inclinam para o TEMPO futuro a serem revolucionários.
A violência do TEMPO é das coisas mais pesadas. Basicamente ela pode ocorrer de dois modos. O TEMPO ser insuficiente, acabar abruptamente ou, ao inverso, ele prolongar-se, ser imposto. Adriano Moreira, afastado da Ciência Política no seu estado bruto e fora do seu rigor metodológico e conceptual, produziu um texto fabuloso, num humanismo tocante, em que capta este dualismo da violência do TEMPO de forma magna.
“A violência é a antecipação do fim. Uma vida para ainda durar. Antes do Tempo. A mão que se aperta e que arrefece. Morta sem ter gasto todo o seu calor. Os olhos que se fecham sem ter visto. O leite derramado. A semente que apodrece e não germina. A mulher que morre e, com ela, as mil gerações de filhos que teria. O menino que não chegou a crescer. O rapaz que não pôde envelhecer. O velho que não viu o neto prometido. Tudo antes do tempo. Mas também é violência o tempo que nunca mais acaba. A obrigação de estar. A proibição de partir. A condenação de viver. Ou o viver condenado. O fim da liberdade antes do tempo. Violência branca. Sem porta de saída. Durar para além do querer. O ponto final sempre distante. Somando a violência da vida repartida. Pelos atalhos. Com falta disto e daquilo. Sem estradas. Imagens repetidas de espelho em espelho. Cada desejo um fracasso. A mudança impossível. Tudo como sempre. No fim como no princípio (…)”.
Se saltarmos para a musica, ninguém captou melhor, apoiado numa reflexão intelectual, o que os homens fazem e desfazem com o TEMPO, como os Pink Floyd em High Hopes, numa música incluída no Álbum The Division Bell, surgido em 1994 e sobre a direcção de David Gilmour e Polly Samson. Num brilhantismo que dói, foram recordar uma simbologia, marcante, da retórica parlamentar britânica. O sino, e o seu efeito sonoro (division bell), usado para terminar discussões em que a comunicação inteligível deixa de poder ocorrer.
Falando deste TEMPO dialéctico, entre a argumentação e a retórica, entre os que procuram a filosofia ou os que se contentam com o sofismo, permitam-me considerar que este Álbum, centrado na falta e excesso de comunicação, que em comum só contribuem para o isolamento, é intemporal. Como sabem do que estão a falar, elaboraram um vídeo clip que não ignora as «teorias de comunicação» alicerçadas em representações que se exprimem mediante a análise de fluxos e trajectórias, em que objectos circulares e esféricos assumem protagonismo. No fundo uma sujeição aos processos de comunicação representativa, expressiva e confusa, esta última numa mutação em “confusionante”.
Comunicação Representativa: Realizada por acções pontuais, com momentos determinados e visando determinadas finalidades, atomista (o emissor e receptor estão separados) e mecanicista (respeita o princípio de linearidade na transmissão). Ocorre uma causalidade linear em que o impacte sobre o receptor é sempre calculável.
Comunicação Expressiva: Deixa de existir o envio, por parte de um sistema emissor, de uma mensagem calculável para o receptor. Cria-se uma causalidade circular num meio ambiente complexo, menos determinado do que o existente no modelo de Comunicação Representativa. O modelo tem em conta que o observador possui influência determinante sobre o que pretende observar, abre-se caminho ao papel de resistência ou de amplificação que o receptor pode ter em face das mensagens enviadas pelo emissor.
Comunicação “Confusionante”: Surgida no contexto de excesso de fontes de informação que se atropelam umas ás outras, criando uma exaustão de ofertas e uma incapacidade de digestão por parte da procura. Modelo simultaneamente autista (ocorre um auto/fechamento em que deixa de ser necessário comunicar o pensamento a outrem nem de se conformar ao dos outros) e tautológico (emissor e receptor confundem-se, tornando-se realidades idênticas). A contracção dos termos Tautologia e Autismo leva ao surgimento do conceito de “Tautismo”.
Podia continuar no campo sentimental e emotivo. Mas não ouso, por pudor e respeito, reflectir sobre o papel que certos acontecimentos têm no meu TEMPO próprio e único…
O que posso apenas dizer, e tento fazê-lo sempre que em Ética tal permite, que o mais singular no Homem, aquilo que o torna único e irrepetível é a forma como ele interpreta o seu TEMPO Imanente (que permanece interiormente) e o seu TEMPO Transitivo (que passa não deixando memória e recordação).
Existe o TEMPO traiçoeiro, da decepção, o TEMPO que “volta ou não volta para traz”. É uma “faca de dois gumes” o TEMPO com todos os seus equívocos. O que aconteceu e o que poderia ter acontecido. A propósito de “facas no TEMPO ou apontadas no TEMPO” faço, ainda, uma confidência musical. Vale a pena escutar a “naifada” dos Genesis (Knife), nos tempos de Peter Gabriel, para ter mais força para pensar e meditar nestas coisas do TEMPO diversas, por exemplo, de ler horas num relógio de pulso e pensar que se sabe contar o TEMPO.
Obrigado, Genesis, por esta cavalgada de rock sinfónico para, tanta vez na decepção, acreditar que o TEMPO tem sentido e nele se podem inscrever projectos viáveis de vida, sem esquecer as armadilhas e campos de batalhas que os povoam com guerras físicas que são, tantas vezes, guerras de consciência. Só se sobrevive ao TEMPO com força de ressurgir, com vontade de recomeçar, com esperança de ressuscitar sendo, enfim, «Senhor do TEMPO».
A confusão entre «DE» e «COM» pode baralhar a compreensão das coisas.
Talvez por este facto alguns dos maiores cemitérios do Divino tenham surgido em faculdades de Teologia, Habitat´s de especialistas em pensarem e falarem «DE Deus» ao invés de «COM Deus». Vem-me à memória a adolescência e a paciência necessária para os peritos em conversar «DE mulheres», acumulando esta liderança com a inexperiência de conversar «COM mulheres», contribuindo para uma clara iliteracia do feminino. Como professor vou ambicionar conversar mais «COM alunos» do que manter conversas em torno «DE alunos».