Consistência Real




Camel - Mystic Queen (1973)


Tem estado a circular um e-mail que foca a durabilidade e longevidade de uma Monarca com o sugestivo título "Quantos Presidentes dura uma Rainha"?. Sem dúvida uma mais valia na identificação de um património cultural e político comum. Neste caso do Britânico. Quase de imediato fui assaltado pelo desejo de ver estas imagens com uma música do Álbum estreia do Grupo Camel (1973) com o título Mystic Queen que me parece, absolutamente, sugestiva para a temática. É quase intolerável andar esquecida esta música.


Para superar a Rainha Vitória (1819/1901), reinado de quase 64 anos (1837/1901), tem de reinar até ao dia 9 de Setembro de 2015. Com saúde ainda vai conviver com um bom par de presidentes mundiais. Com o caso específico dos "polícias do Mundo" que surgem nestas fotografias, pelo que se passa nos EUA, parece que a última foto vai estar actual em 2015.



Obama
Bush

Clinton

Bush (pai)

Reagan

Carter

Ford

Nixon

Kennedy

Eisenhower

Truman

Candidaturas políticas


Album Paris (1979), resultante da tourné realizada nesse ano e que teve por base o registo discográfico Even in the Quietest Moments (1977) - Música Fool´s Overture


Os líderes políticos estão esgotados com a campanha eleitoral. As suas vidas consomem-se pela colectividade. Tenho pensado "neles" apoiado em Kwame Anthony Appiah, membro do Centro para os Valores Humanos da Universidade de Princeton.


Encantador o combate ao clientelismo. A independência para com grupos de pressão ou de interesse. A não vinculação a formas de compensação e favorecimento. Os homens públicos serão sempre patronos e hierarquizam-se pelo número de clientela que representam. São gestores de contactos. Desde sempre a política foi marcada por essa realidade. A este propósito Appiah recorda-nos o que Horácio (65-8 a.C.) no III Livro das Odes produziu poeticamente em Odi profanum vulgus: "E, no início do poema fala-nos, também, sobre um grupo de candidatos às eleições, entrando no fórum de Roma: Um é de uma linhagem mais nobre, outro é cheio de estilo e com uma boa reputação, e sobre o terceiro ele diz:

«...a multidão dos clientes daquele homem poderá ser Maior».

Illia Turba clientium sit maior: Ele deve ter um grupo maior de clientes. Possuir uma legião de clientes era uma fonte de estatuto na Roma de Augusto. Era algo que trazia respeito: podendo mesmo conseguir que uma pessoa fosse eleita para o cargo".

Os políticos sofrem da ambição de resolverem problemas colectivos. Neste aspecto a sua existência é facilmente vítima da impossibilidade de se situarem na resolução e amparo da escala individual. Uma vez mais Kwame Appiah, apoiado em Thomas Carlyle (1795/1881) e Edmund Burke (1729/1797) põe o problema, recordando o lastro de dois pensadores exímios na arte de se preocuparem, gostarem e amarem toda a Humanidade sem, individualmente, se terem situado na procura de viverem tais conceitos em parceria individual: "«Amigo dos homens, e inimigo de qualquer homem com quem travasse conhecimento», disse de forma memorável Thomas Carlyle a respeito do fisiocrata do século XVIII, Marquis de Mirabeu, que escreveu o tratado «L´Ami des Hommes», quando não estava demasiado ocupado a prender o seu próprio filho. «Um amigo da sua espécie, mas um inimigo da sua família», disse Edmund Burke a propósito de Jean-Jacques Rousseau, que entregou cada um dos seus cinco filhos a um orfanato".

Por estas razões os políticos querem resolver a educação, mas provavelmente nunca vão educar ninguém. Preocupam-se com a terceira idade, mas nunca terão tempo para os seus próprios pais. São dados a paixões e amores que dificilmente chegam a efectivar-se de forma personalizada. Consomem-se no plural (soma de votos é isso mesmo). Tendem a desconhecer e a saborear o individual, singular e único.


Nota - As citações realizadas foram retiradas da obra

APPIAH, Kwame (2008) Cosmopolitismo, Ética num Mundo de Estranhos, Publicações Europa-América, Mem Martins, ISBN 978-972-1-05929-0.

Crise. Qual crise?


Supertramp - Soapbox opera; album Crisis? What Crisis? (1975)



Ver debates entre putativos primeiros-ministros oriundos do bloco central só com a companhia do filósofo Daniel Innerarity. Aprisionados a executar programas que já não são matéria da sua decisão, limitados a apresentarem resultados sobre orientação, a encenação em torno da liberdade de escolha torna-se patética: "quanto menos há para decidir, quanto menos está em jogo, tanto mais se faz notar a qualidade da representação".

O ponto de partida da maioria da assistência que preside a este tipo de espectáculos conduz-se pelo estereótipo que os artistas não são sérios. A aparência é soberana. O que aparentar ser menos mentiroso, um pouco mais económico nas contradições e um nadinha contido na demagogia triunfa. "Assim sendo, vence aquele que melhor sabe representar a credibilidade. Por isso a lógica dos meios de comunicação exige a personalização da política, a continua vinculação de notícias mais ou menos abstractas a nomes e, se possível, a rostos".

A campanha vai avançando. A possibilidade de agir politicamente de forma diferente e livre é ténue. Sobra personalizar os problemas para parecer que existem clivagens. "Os comportamentos e os temas só suscitam interesse quando as pessoas vêm neles assuntos pessoais. Na contenda eleitoral já não se enfrentam programas, mas rostos, sem um rosto visível nem, sequer as melhores ideias politicas se podem fazer notar".

Esperando a Troika



Genesis Firth Of Fifth (Selling England by the Pound) 1973


Tendo, por mais de uma vez, achado de grande pessimismo e radicalismo muitas das posições deste autor, não encontro melhor forma de descrever o que se passa na III República que num dos seus textos. Tanto mais que tendo sido escrito em 1985 ganha uma intemporalidade notável.

"Nunca é demais denunciar que a economia portuguesa está em crise porque Portugal está em crise.
Tornou-se o Estado português como um grande «diner-buffet», onde os gulosos satisfazem a voracidade; mas, como qualquer «diner-buffet», desaparece rapidamente quando não há quem sirva com ordem e preceito e confeccione arduamente ao ritmo da voracidade.
E, no atropelo da corrida às vantagens individuais ou de grupo, criaram-se as tensões, o conflito, o isolamento. A convivência entre os portugueses está degrada e a competição exacerbada; imperam, como critérios de promoção socio-profissional, o compadrio, o sectarismo, a corrupção, a versatilidade de carácter.

A competitividade económica foi abafada pela competitividade política. A economia da capacidade concorrencial foi substituída pela economia da capacidade reivindicativa.

As análises, os diagnósticos e as terapêuticas sobre a economia portuguesa pululam. No ambiente em que se vive, são geralmente exercícios sectários ou expressões de circunstancialismos políticos".

Herlânder Duarte
Economia de Bem Comum (1985)

Foi beatificado João Paulo II no dia do trabalhador. Sobre o papel do trabalho na realização humana, a problemática filosófica do que andamos a produzir, para quê e com que efeitos? ou sobre os limites evidentes do liberalismo e do socialismo para resolver os problemas humanos foi, de todo, "milagroso" nas contribuições que nos deixou.

" O Homem de hoje parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz. ... Nisto parece consistir o capítulo principal do drama da existência humana contemporânea, na sua dimensão mais ampla e universal. Consequentemente, o Homem vive cada vez mais no medo".

João Paulo II
Encíclica Redemptor Hominis (1979)

Tirar partido de Surpresas



Sara Bareilles - The Light

Foi uma estrondosa surpresa o que encontrei nestas férias de Carnaval. Tinha um objectivo modesto. Há anos que não fazia a costa portuguesa entre a Lagoa de Albufeira (Caldas da Rainha) e S. Pedro de Muel (Marinha Grande). Pelo meio queria recordar o sítio da Nazaré e o seu Santuário Mariano. Duas alegrias. Na III República ainda existem “portugais” que tentam resistir à banalização e delapidação.
Começando pela banalidade, não é que na Nazaré as pessoas vivem a quadra espontaneamente, é ver os restaurantes e bares cheios de mascarados sem batuta organizativa! Passando ao estado delapidado a que chegamos é extraordinário que a costa a Norte de Nazaré, entre Légua e a Praia de Vieira, em termos ambientais, tenha sido preservada mas, ao mesmo tempo, devidamente equipada em quase todo o seu percurso. É, inclusive, possível em ciclovias e de forma pedonal percorrê-la na maior parte da sua extensão. Estava com receio, mas S. Pedro de Muel mantém o encanto de sempre.

Este Carnaval teve, também, uma particularidade encantadora. Como a Terça-feira, dita gorda, coincidiu com o dia Internacional da mulher, as homenageadas tiveram a sorte de não serem instrumentalizadas e massacradas como, habitualmente, sucede anualmente a 8 de Março. Graças ao carnaval escaparam a ser tratadas de duas formas humilhantes. Com “cotas” e data “protectora”. A propósito de igualdades e semelhanças, que é um assunto sério, nada como ouvir Sara Bareilles. Não desejam os “humanos” o mesmo das relações humanas independentemente do “género”? Encontrar quem seja fonte de energia para a sua existência e luz que ilumina uma trajectória de vida. Umas vezes ter espaço para respirar, outras a oportunidade de recuperar uma respiração perdida ou, ainda, possibilidade de optimizar novas formas de respiração?




Sara Bareilles - Breathe Again

Ziguezagues na Comunicação



Peter Gabriel e Paula Cole (Come Talk To Me) Tourné Secret World -1994


Porventura por se tratar do mês em que faço anos tenho meditado no sentido da amizade. Um balanço de vida é sempre propício para pensarmos nas pessoas que têm prazer em comunicar connosco. Contabilizar com quem se pode contar quando necessitamos de conversar, mais desesperadamente desabafar. Mais modestamente apenas “falar”, desafiar no sentido de “ venha falar comigo”. Removendo nesta tarefa fui impelido a revisitar a saudosa tourné de Peter Gabriel e Paula Cole ocorrida em 1994 (secret Word). Foi uma dupla perfeita. Vale a pena escutar “Come Talk To Me”.
A maior dificuldade, partindo da situação particular de se considerar apenas a comunicação livremente escolhida, consiste em dosear o consentimento e a restrição humana que estamos dispostos a partilhar com os que nos rodeiam. Saber gerir o que em termos de “consentir” e “restringir” é adequado em cada circunstância e para uma pessoa em concreto é um desafio de grande envergadura.
O maior risco da lealdade comunicativa, porque a informação é sempre fonte de poder, é a crueldade com que ela pode ser usa. Em qualquer âmbito societário as “tareias” que se podem levar são monumentais. Nunca é de mais salientar como aponta Malcolm Skibeck “um ser humano pode ser bem informado, mas mal formado”.
Distanciado do pessimismo e da crueza da obra de Cesare Pavese, sou tentado a dizer apoiado numa sua frase célebre: “No dia em que poderes mostrar a tua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar a sua força”, encontras a amizade, mais pontualmente o amor.
Na comunicação humana a Boa-Fé é mais importante do que a Sinceridade. Ser sincero é não enganar nem mentir aos outros, mas estar em Boa-Fé é não mentir nem aos outros nem a nós mesmos. Quando se está de Boa-Fé, mesmo enganado, diz-se o que se pensa acreditando. Por isso não deixa de ser fundamental estar aberto a uma rectificação, sujeitos a uma correcção, em suma testar o que encaramos como verdadeiro. Nas relações humanas custa imenso, mas como diz o reputado filósofo André Comte-Sponville “mais vale uma tristeza verdadeira do que uma falsa alegria”.
Quando se confia, se gosta e se tem reconhecimento por alguém naturalmente existe disposição para dar alento, proporcionar uma oportunidade, contrariar uma desistência. É sem dúvida uma boa forma de medir a amizade e o amor dos que estão dispostos a partilhar connosco (bem “canta” Peter Gabriel & Paula Cole uma vez mais - Don't Give Up).



Peter Gabriel & Paula Cole (Don't Give Up) Tourné Secret World -1994

Que bela forma de comemorar o centenário

Em termos politológicos Portugal já tem um representante da República a conferir dignidade ao desempenho do cargo – o Presidente da AR, segunda figura do Estado – pelo que só o desejo de duplicação de funções, em tempo de crise, justifica este empurrar do povo português para um acto eleitoral. Notavelmente com 23% dos votos expressos é possível eleger, temporariamente (projecto quinquenal), um represente estadual???...Nacional??? ….????
Sobre a campanha grande retrocesso. Nas monarquias os Reis e as Rainhas emprestam a sua imagem para dar credibilidade ao dinheiro. É vê-los cunhados e impressos em moedas e notas. Nas repúblicas os candidatos ainda estão na fase de provar e justificar como aparece o dinheiro nas suas contas bancárias ou se materializa de forma imobiliária.


Disputa eleitoral

%

Abstenção

5.139.726

53%

Cavaco Silva

2.230.104

23%

Manuel Alegre

831.959

9%

Fernando Nobre

593.868

6%

Francisco Lopes

300.840

3%

Brancos

191.159

2%

José M Coelho

189.340

2%

Nulos

86.543

1%

Defensor de Moura

66.091

1%

Total

9.629.630

100%



Cavaco em 2006 teve 2,773,431 votos, perdeu mais de meio milhão. Está satisfeito, ainda por cima teve a proeza de ter obtido o pior resultado de um candidato em reeleição. Ficamos a saber que a sua vitória é sobre a calúnia personalizada sobre a sua pessoa. Continua a ser o de sempre: “nunca se engana” e é preciso “nascer” ou “morrer” para encontrar outro igual em capacidade e honestidade.
Lembrando-me dos anos de 1994 e de 1995, recheados de tabus e silêncios, em que tomava café devorando de forma assassina "bolo-Rei” como um carbonário sonhando ser presidente da colectividade portuguesa, veio-me ao ouvido a música de Sara Bareilles e a sua apropriada letra para “Reis de nada e de ninguém”.



Sara Bareilles (King Of Anything)


Manuel Alegre cumpriu no esperado para o seu carácter. Consegue exercer uma cidadania livre onde a defesa da caça, da tauromaquia, das dúvidas sobre “homossexualidades”, não são impeditivos para convencer uma base eleitoral que, nos manuais elementares de sociologia política, na sua essência repudia todas estas causas e desconfianças.
Nunca percebi a sua construção identitária. Sempre encostado a um passado glorioso da I República e de resistência na II, parece que tem amnésias nas “alegrias” que os seus familiares tiveram no decurso da democracia parlamentar monárquica do século XIX. Não teve o Rei Dom Carlos I, quinze anos antes de ser assassinado, tempo para fazer “alegre” a sua avó paterna com o título de baronesa da Recosta (decreto de 16-11-1893 / carta de 30-11-1893), quando o seu pai, bisavô de Manuel Alegre, já tinha sido encartado com o baronato de Cadoro. Só levar a sério uns costados, desequilibra a coluna.
Alegre tem o mérito de não poder ser ignorado no panorama cultural português. Não foi graças à sua poesia que podemos ouvir a magnifica Maria Ana Bobone, numa Igreja, sem medos nem preconceitos de parecer propaganda, ou melhor, proselitismo religioso.


Maria Ana Bobone (Meu Nome é Nome de Mar)

Ano 2011






Genesis (Ripples) - Roma 2007


Vai ser necessária muita energia para 2011. É evidente a impreparação para lidar com a conjuntura. No pânico a mesquinhez vai tomando conta das relações humanas. A falta de perspectivas vai arrasando muitos laços de solidariedade que mantinham e explicavam o funcionamento e a razão de ser das organizações. É uma perfeita espiral de violência psicológica a que se está sujeito.
O que me parece mais lamentável é a quezília que torna as pessoas mais desconfiadas, isoladas, incapazes de se reencontrarem noutros caminhos, explorando novas oportunidades. Realizando um abandono ou separação sem mágoa, permitindo deixar portas por abrir se as circunstancias se proporcionarem.
Por todas estas razões o exemplo de Phill Collins (ausente dos Genesis durante 10 anos (1996/2006) me tem povoado a mente neste final de ano. Deixando, até com justificação de saúde, voltou ao projecto da banda com a ambição de recuperar, não apenas os que nunca a abandonaram, Tony Banks e Mike Rutherford, mas os que há muito a tinham deixado, Peter Gabriel e Steve Hachett. Não foi possível reunir todos, realizou-se a tourné com quem livremente se disponibilizou. Só estou grato por ter tido a oportunidade de escutar o tema Ripples da forma como foi interpretado.
A reter. Não existe espaço para “birras", participou livremente quem quiz, mas respeitaram-se todos, porque o hábito de continuar em diálogo nunca se perdeu, totalmente, ao longo dos anos. Só se “abandona-regressando” quando se sabe manter “pontes”, qualidade pouco visível, na actualidade, em que na ruptura estéril tantos se empenham.

Não sei a que horas me vou levantar, no 44º dia Mundial da Paz que tem por lema a "Liberdade religiosa, caminho para a Paz", mas bem podia começar a manhã com Steve Hackett (spectral Mornings).






Steve Hachett (Spectral Mornings)

Até lá vou utilizar um outro guitarrista ao nível de Steve Hackett, Andrew (Andy) Latimer, para realizar uma Catarsis (no sentido de acalmia e eliminação de factores que agitam a consciência) e uma Ataraxia (consentida na procura da tranquilidade da alma, na ausência de perturbações, na harmonia dos pensamentos) sobre o que foi o ano 2010.

Camel (Ice)

Pensar nos Esquecidos



Ecos na Catedral - Madredeus (2001)


No contexto da globalização existem mutações sociológicas em que comunidades religiosas são sujeitas a pressões identitárias entre os seus «localismos territorializados» tradicionais e os «localismos desterritorializados» em diáspora, desenvolvidos voluntariamente (fluxos de emigração) ou sobre pressão (fluxos de exilados).
Os cristãos árabes fornecem-nos abundantes exemplos desta natureza e sempre me suscitaram particular fascínio. O que se passa no Iraque deve ser motivo de reflexão. Circunscrevendo ao universo católico árabe, o mais significativo na especificidade iraquiana na forma do Patriarcado Caldeu, assiste-se a uma erosão da sua presença na vertente do «localismo» histórico e numa tentativa de afirmação crescente na diáspora permitida.
Incompreendidos por ignorância, apatia ou simples desinteresse mediático são esquecidos, paradoxalmente, nas sociedades que desenvolveram o multiculturalismo. São necessárias carnificinas como a ocorrida na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Bagdad, no passado dia 31 de Outubro, para garantirem uma audiência mínima. Onde habitam, apanhadas pelo fundamentalismo religioso, são presa fácil para descarregar frustrações.
No caso do Iraque, oportunistamente por parte dos que querem transformar o país num aglomerado homogéneo étnico/religioso, realidade que nunca o foi, vêem-se transformar no bode expiatório, num alvo fácil, num sector colaboracionista, de “forças invasoras”. Estas, é sabido sem grande esforço intelectual, formam uma coligação precipitada, descabida e desproporcionada que destruiu uma sociedade que, sem dúvida mergulhada num autoritarismo atroz, tinha uma estrutura societária em que as matérias religiosas gozavam de liberdade.
Apanhados no meio de dois produtos expressivos da globalização, em ambos os casos com protagonistas exógenos, no caso do fundamentalismo islâmico (infiltrados) no caso dos invasores (transportados) a presença multissecular cristã iria ficar sobre ameaça extrema. Para ironia macabra da Igreja Católica Caldeia (também designada por Melquita do Oriente), a grande desestabilização veio de uma iniciativa de uma potência que esteve na base do rastilho do fundamentalismo islâmico em muitas partes do Mundo e, internamente, se debate com um fundamentalismo protestante.
A Equiparquia Metropolitana Caldeia de Bagdad tinha 325,000 crentes em 1990, apenas 145,000 no ano 2008. Menos de metade em 18 anos (Fonte – Annuario Pontifício – The Eastern Catholic Churches/2008). Não é um genocídio, mas é um etnocídio o que está a acontecer aos caldeus.

Sobre a transcendência da Monarquia republicanizada como guardiã da memória colectiva de um povo


Neste centenário de República, dramaticamente mutilada de Monarquia, sabe-me a oráculo o pensamento de José Ortega y Gasset (1883/1955).

Diz-se que há muito a Monarquia inglesa é uma instituição meramente simbólica. Isso é verdade, mas dizendo-o assim deixamos escapar o melhor. Porque, efectivamente, a Monarquia não exerce no Império britânico nenhuma função material e palpável. Seu papel não é governar, nem administrar a justiça, nem mandar o Exército. Mas nem por isso é uma instituição vazia, carente de serviço. A Monarquia da Inglaterra exerce uma função determinadíssima e de alta eficácia: a de simbolizar. Por isso o povo inglês, com deliberado propósito, deu agora inusitada solenidade ao rito da coroação. Antes a turbulência actual do continente quis afirmar as normas permanentes que regulam sua vida. Deu-nos mais uma lição.
O inglês faz empenho de nos fazer constar que seu passado, precisamente porque passou, porque lhe passou, continua existindo para ele. Desde um futuro ao qual não chegamos mostra-nos a vigência louça de seu pretérito. Este povo circula por todo o seu tempo, é verdadeiramente senhor de seus séculos, que conserva em activa posse. E isto ser um povo de homens: poder hoje continuar no seu ontem sem por isso deixar de viver para o futuro, poder existir no verdadeiro presente, já que o presente é só a presença do passado e do porvir, o lugar onde pretérito e futuro efectivamente existem.
Com as festas simbólicas da coroação, a Inglaterra opôs mais uma vez, ao método revolucionário o método da continuidade, o único que pode evitar na marcha das coisas humanas esse aspecto patológico que faz história uma luta ilustre e perene entre paralíticos e epilépticos.

José Ortega y Gasset in Rebelião de Massas