Escutando mensagens musicais


I Didn't Know My Own Strength (2009)

Apetece-me falar de Whitney Houston (1963/2012) por motivos mais filosóficos que musicais. Todos conheciam o sucesso comercial dos anos 80 e 90 do século XX. Pouca gente pode dizer que frequentou espaços lúdicos sem tropeçar na sua música. Lamentável, como tantas vezes acontece, é que o seu álbum de maturidade surgido em 2009 - I Look to You - tenha passado desapercebido. Nele existem duas músicas notáveis que sintetizam um percurso de vida. Numa é preponderante a vontade em lutar individualmente e solitariamente, noutra impossível levar tal tarefa sem procurar apoio. Em comum o desabafo genial, musicalmente fabuloso, de uma mulher em balanço de vida, nos quarenta, sem grande ilusões sobre o mundo e os seus habitantes racionais.

Maturidade que é despegarmos e despojarmos os contactos humanos onde abundam criaturas que construímos de uma forma fictícia, produto da nossa imaginação ou de um contacto que não foi totalmente leal:

"Será melhor deixar os homens por aquilo que são, que tomá-los por aquilo que não são". Nicolas Chamfort /1740/1794)

Impossível viver sem amizade, por difícil que seja encontrá-la. Consciência da sua raridade e singularidade.

" Um outro refúgio para acusações de anormalidade é a amizade, sendo um amigo, entre outras coisas, alguém suficientemente bondoso para ter em consideração uma maior parte de nós do que qualquer outra pessoa". Alain de Botton


I Look to You (2009)

Tempo de Boas Festas

Václav Havel (1936/2011)

"Não se pode, simultaneamente, tomar posição e recusar as consequências naturais da posição tomada".


Sobre as ideologias, o poder político e a actuação dos políticos Václav Havel disse coisas extraordinárias para os fabricantes quer de socialismos quer de liberalismos. A sua actualidade é manifesta, aplicando-se de que maneira aos desafortunados cidadãos que ficaram cativos deste regime instaurado pela III República, responsável por ter gerado não uma democracia mas antes uma cleptocracia. Agora, copiando Fidel Castro que deixa a emigração dos dissidentes para a Florida, aconselham-nos a emigrar. Václav Havel deixou o testamento da resistência.

Sobre os malefícios das Ideologias: "É o simulacro de qualquer coisa de «sobre-individual» que permite ao indivíduo enganar a sua própria consciência e mascarar para o mundo e para si mesmo a sua verdadeira situação e o seu «modus vivendi» sem glória". E de forma mestra sobre o que as ideologias podem oferecer aos detentores de Poder: "Este complicado mecanismo de componentes , de graus, de alavancas de comando e de instrumentos de manipulação indirectos, não deixando nada ao acaso e assegurando, de múltipla maneiras, a integridade do poder, é muito simplesmente impensável sem a ideologia, o seu «álibi» universal e o « álibi» de cada um dos membros do sistema".

Relativamente ao Poder político ensina-nos: "está cativo das suas próprias mentiras e, por isso, tem de continuar a falsificar o passado, falsifica o presente e falsifica o futuro. Falsifica os dados estatísticos. Finge não ter um aparelho policial todo-poderoso e capaz de tudo, finge respeitar os direitos do Homem. Finge não perseguir ninguém. Finge não ter medo. Finge nada fingir.
O indivíduo não é obrigado a acreditar em todas estas mistificações. Deve, no entanto, comportar-se com se acreditasse ou, pelo menos, as tolerasse em silêncio, ou ainda, estar em boa relação com aqueles que as operam. Mas isso já o obriga a viver na mentira. Não é obrigado a aceitar a mentira. Basta que tenha aceite viver com ela e nela. Porque, com esse acto, já conforta o sistema, cumpre-o, fá-lo é o sistema".

Sobre os efeitos da actuação dos dirigentes políticos: "assim se mergulha numa vida puramente vegetativa, numa desmoralização em profundidade, que resulta da perda de toda a esperança e da crise da crença no sentido da vida. Isto confere uma nova actualidade ao carácter trágico da situação do Homem numa civilização tecnicista que coincide com a erradicação do absoluto para fora do nosso horizonte ; eu chamaria a isto crise de identidade humana; um sistema que exige implacavelmente ao Homem que não seja ele próprio, pode travar a decomposição da sua identidade?".

Fiquei assustado quando me dei conta que o primeiro contacto que tive com uma sua obra, traduzida em português, tem 20 anos.
HAVEL, Václav (1991), Ensaios Políticos, Bertrand Editora, tradução de Margarida Gago da Câmara, 1ª edição, Lisboa, ISBN 972-25-0552-1.

Estamos na Quadra Natalícia. Apetece-me recordar a cultura cristã copta, comunidade árabe tão martirizada ao longo deste ano de 2011.









Meditações em noite de Halloween


Nunca se avançou tanto nas teorias de relacionamento profissional. Transversalmente as relações deontológicas têm sido alvo de muitas investigações apoiadas em contribuições científicas diversas. Enumerá-las é uma tarefa enciclopédica. Com esta panóplia como é que se chegou ao espírito de desagregação, desconfiança e desencanto actual? Crise? Certamente no plural? Com poucos conceitos vou descrever o ambiente de trabalho no que resta de Portugal.
Na teoria para o funcionamento de uma organização o bom senso remete-nos para a necessidade de reunirmos estas condições, dificilmente adquiridas porque o Homem precisa de desenvolver em termos endógenos um conjunto de qualidades humanas fundamentadas em valores. Com solenidade os especialistas formadores, que opinam nestas matérias, neste ponto costumam resumir o problema com um powerpoint sugestivo em que a frase mágica costuma ser "alcançar uma cultura de sucesso". Tradicionalmente os pilares na harmonia organizacional, sem ela não se chega ao sucesso organizacional, são:
a) Confiança na execução de tarefas
b) Reconhecimento nos saberes.
c)Empatia na partilha de responsabilidades.
d) Estima no contacto humano.
Em termos práticos o que efectivamente funciona nas estruturas organizativas portuguesas são estas quatro características. Ultrapassá-las seria sem dúvida um avanço deontológico decisivo:
a) Chantagem na distribuição e atribuição de tarefas.
b) Arbitrariedade nos modelos de avaliação.
c) Narcisismo nas tomadas de decisão.
d) Inveja e maledicência no trato humano.

No meio da ineficácia que tudo paralisia alguns particularismos estafados. Verdade que todos em coro sabem diagnosticar é que a Justiça não funciona, como se os detentores do Poder não tivessem sido os primeiros responsáveis ao criarem uma moldura legislativa propicia a todas as sabotagens. Para o refinamento da corrupção tive de desenterrar o Visconde Louis de Bonald (1754/1840), que durante a revolução francesa se teve de exilar, para perceber um pouquinho do que se passa: "a pior das corrupções não é aquela que desafia as Leis, mas a que se corrompe a ela própria".

Os gestores de Poder com chance de governação mais do preocupados com os interesses lesados da população, contabilizam os orgulhos feridos surgidos da necessidade de partilharem os aparelhos de decisão e execução política. Caro Louis de Bonald, podes ser um pensador esquecido ou maldito, mas muito acertivo neste tema: "Os orgulhos feridos são mais perigosos do que os interesses lesados".

O que resta de Portugal -importador e pouco exportador- moderniza-se com novas festividades. É interessante no mesmo património genético mudanças societárias tão aceleradas. Nas mesmas famílias onde dantes competia-se para arranjar uma indumentária de anjinhos para as procissões num outro calendário , agora procura-se uma farda original de diabinho ou de bruxa numa noite outonal. Vai assim a véspera do «Dia de Todos os Santos» numa sociedade ávida a importar tudo do exterior mas incapaz, como outrora, de exportar e acrescentar.

Importar por importar vou ouvir Adel numa boa tradução portuguesa. Neste caso não é importação é partilha cosmopolita, num mundo globalizado em que muitos «localismos desterritorizados» de qualidade subsistem e surgem no meio da banalização massificada, mascarada de vanguardista e progressista. Fazendo da provocação exteriorizada forma de vida que mais não é que truque camoflador da irritação e frustração de não se saber comunicar de forma mais profunda e reveladora de alguma interiorização singularmente atractiva.


Adele Música One And Only - Álbum 21 (2011)

Tempo de Veraneio



Aquele Lápis de Carvão / Album À Flor da Pele (2006)



Para um distanciamento do que se passa na decadente e insustentável III República, cativa da Troika, estar no Reino dos Algarves é um balsamo. Ir até à Andaluzia um exílio compensador.

Málaga tornou-se numa realidade obrigatória para os amantes da paisagem andaluza. No dia 25 de Março de 2011 foi inaugurado o Museu Carmen Thyssen Málaga, instalado no palácio Villalón/Mosquera. A paisagem da Andaluzia, retratada em tela, nunca teve um albergue tão nobre.


Parece que já não bastava ser uma cidade com múltiplos interesses, albergando primazias que não a inferiorizam junto de Granada, Sevilha e Córdova (a hierarquia é da minha responsabilidade). Continua fundamental o Museu Picasso Málaga instalado desde 2003 no palácio dos condes de Buenavista/ Mollina e promovido pela Fundación Museo Picasso Málaga. Legado Paul, Christine y Bernard Ruiz-Picasso. De grande conteúdo didáctico a exposição sobre elementos propagandísticos anarquistas e marxistas. O exagero grotesco da retórica republicana e anticlerical explica muito do desfecho da guerra civil. O que foi o Franquismo e a restauração da Monarquia.

Existe uma falha na paisagem andaluza que na vizinha algarvia é compensada. A quase ausência de figueiras. O Algarve vai despovoando-se delas. O surgimento de uma Associação Protectora da Figueira Comum/Mansa (Ficus carica), uma Confraria do Figo parece-me das iniciativas mais prementes a implementar.
Por esta razão, assume particular relevância comunicativa, ouvir uma das melhores interpretações da fadista Joana Amendoeira enquadrada, visualmente, por uma figueira.






Música Sopra o Vento do Álbum À Flor da Pele (2006)
Poema de Fernando Pessoa (1888/1935)

Cosmopolitismo musical português





Rodrigo Leão/Ana Vieira Deep Blue (Fórum Lisboa 2004)


Em período de férias o tempo torna-se especialmente propício para reflexões apoiadas em termos sonoros. Vivemos mergulhados em conceitos usados das formas mais distorcidas. O de globalização é dos que mais se recente de um uso abusivo. No ano em que em termos de capicua o número onze tem uma importância cimeira, com o dia 11/11/11 e as multiplicações 11x11=121 / 111x111=12321 / 11111x11111=123454321 e 111111111x111111111=12345678987654321, não quero deixar de falar no assunto respeitando 11 linhas.

Aceleração das interdependências económicos, financeiras e tecnológicas. A sua plena influência, não sendo possível de ser ignorada em nenhum local do mundo desde o fim da URSS em 1991 , habilita fazer deste ano a sua efectiva materialização prática como conceito (os europeus gostam, com a queda do "muro de Berlim", de uma antecipação de dois anos). Politicamente vem modificando a gestão do Poder tornando o Planeta mais multipolar. Com a emergência de novas potências e centros de decisão surgem inesperadas conjunturas. Aparecem localismos difusores de transnacionalismos e de correntes religiosas diversas. A crise financeira de 2008, o surgimento do G20 a abafar o G8, a deslocação do conceito de Soberania para entidades cada vez mais distanciadas dos Estados corroboram um específico quadro político.

A globalização está a produzir novos cenários sociais e culturais planetários A lusofonia, assente no interculturalismo ao invés do multiculturalismo, é uma abordagem cosmopolita que não deve ser ignorada e muito menos perdida. Partir para o "Mundo" sem medo de se influenciar pela diversidade que este contem mas, sempre, com a certeza que o vai modificar, transformar e influenciar. O multiculturalismo está a acantonar culturas, a despertar heranças homogéneas em grande medida míticas, reprimindo a aculturação cosmopolita. É um tema interminável que o verão mediterrânico convida a meditar.

Esforçando-me por encontrar uma interprete musical portuguesa, enquadrada por um compositor habilitado intelectualmente a ser um lusitano cosmopolita, as minhas inclinações caem em Ana Vieira e Rodrigo Leão.




Á
lbum (Mãe) 2009

Consistência Real




Camel - Mystic Queen (1973)


Tem estado a circular um e-mail que foca a durabilidade e longevidade de uma Monarca com o sugestivo título "Quantos Presidentes dura uma Rainha"?. Sem dúvida uma mais valia na identificação de um património cultural e político comum. Neste caso do Britânico. Quase de imediato fui assaltado pelo desejo de ver estas imagens com uma música do Álbum estreia do Grupo Camel (1973) com o título Mystic Queen que me parece, absolutamente, sugestiva para a temática. É quase intolerável andar esquecida esta música.


Para superar a Rainha Vitória (1819/1901), reinado de quase 64 anos (1837/1901), tem de reinar até ao dia 9 de Setembro de 2015. Com saúde ainda vai conviver com um bom par de presidentes mundiais. Com o caso específico dos "polícias do Mundo" que surgem nestas fotografias, pelo que se passa nos EUA, parece que a última foto vai estar actual em 2015.



Obama
Bush

Clinton

Bush (pai)

Reagan

Carter

Ford

Nixon

Kennedy

Eisenhower

Truman

Candidaturas políticas


Album Paris (1979), resultante da tourné realizada nesse ano e que teve por base o registo discográfico Even in the Quietest Moments (1977) - Música Fool´s Overture


Os líderes políticos estão esgotados com a campanha eleitoral. As suas vidas consomem-se pela colectividade. Tenho pensado "neles" apoiado em Kwame Anthony Appiah, membro do Centro para os Valores Humanos da Universidade de Princeton.


Encantador o combate ao clientelismo. A independência para com grupos de pressão ou de interesse. A não vinculação a formas de compensação e favorecimento. Os homens públicos serão sempre patronos e hierarquizam-se pelo número de clientela que representam. São gestores de contactos. Desde sempre a política foi marcada por essa realidade. A este propósito Appiah recorda-nos o que Horácio (65-8 a.C.) no III Livro das Odes produziu poeticamente em Odi profanum vulgus: "E, no início do poema fala-nos, também, sobre um grupo de candidatos às eleições, entrando no fórum de Roma: Um é de uma linhagem mais nobre, outro é cheio de estilo e com uma boa reputação, e sobre o terceiro ele diz:

«...a multidão dos clientes daquele homem poderá ser Maior».

Illia Turba clientium sit maior: Ele deve ter um grupo maior de clientes. Possuir uma legião de clientes era uma fonte de estatuto na Roma de Augusto. Era algo que trazia respeito: podendo mesmo conseguir que uma pessoa fosse eleita para o cargo".

Os políticos sofrem da ambição de resolverem problemas colectivos. Neste aspecto a sua existência é facilmente vítima da impossibilidade de se situarem na resolução e amparo da escala individual. Uma vez mais Kwame Appiah, apoiado em Thomas Carlyle (1795/1881) e Edmund Burke (1729/1797) põe o problema, recordando o lastro de dois pensadores exímios na arte de se preocuparem, gostarem e amarem toda a Humanidade sem, individualmente, se terem situado na procura de viverem tais conceitos em parceria individual: "«Amigo dos homens, e inimigo de qualquer homem com quem travasse conhecimento», disse de forma memorável Thomas Carlyle a respeito do fisiocrata do século XVIII, Marquis de Mirabeu, que escreveu o tratado «L´Ami des Hommes», quando não estava demasiado ocupado a prender o seu próprio filho. «Um amigo da sua espécie, mas um inimigo da sua família», disse Edmund Burke a propósito de Jean-Jacques Rousseau, que entregou cada um dos seus cinco filhos a um orfanato".

Por estas razões os políticos querem resolver a educação, mas provavelmente nunca vão educar ninguém. Preocupam-se com a terceira idade, mas nunca terão tempo para os seus próprios pais. São dados a paixões e amores que dificilmente chegam a efectivar-se de forma personalizada. Consomem-se no plural (soma de votos é isso mesmo). Tendem a desconhecer e a saborear o individual, singular e único.


Nota - As citações realizadas foram retiradas da obra

APPIAH, Kwame (2008) Cosmopolitismo, Ética num Mundo de Estranhos, Publicações Europa-América, Mem Martins, ISBN 978-972-1-05929-0.

Crise. Qual crise?


Supertramp - Soapbox opera; album Crisis? What Crisis? (1975)



Ver debates entre putativos primeiros-ministros oriundos do bloco central só com a companhia do filósofo Daniel Innerarity. Aprisionados a executar programas que já não são matéria da sua decisão, limitados a apresentarem resultados sobre orientação, a encenação em torno da liberdade de escolha torna-se patética: "quanto menos há para decidir, quanto menos está em jogo, tanto mais se faz notar a qualidade da representação".

O ponto de partida da maioria da assistência que preside a este tipo de espectáculos conduz-se pelo estereótipo que os artistas não são sérios. A aparência é soberana. O que aparentar ser menos mentiroso, um pouco mais económico nas contradições e um nadinha contido na demagogia triunfa. "Assim sendo, vence aquele que melhor sabe representar a credibilidade. Por isso a lógica dos meios de comunicação exige a personalização da política, a continua vinculação de notícias mais ou menos abstractas a nomes e, se possível, a rostos".

A campanha vai avançando. A possibilidade de agir politicamente de forma diferente e livre é ténue. Sobra personalizar os problemas para parecer que existem clivagens. "Os comportamentos e os temas só suscitam interesse quando as pessoas vêm neles assuntos pessoais. Na contenda eleitoral já não se enfrentam programas, mas rostos, sem um rosto visível nem, sequer as melhores ideias politicas se podem fazer notar".

Esperando a Troika



Genesis Firth Of Fifth (Selling England by the Pound) 1973


Tendo, por mais de uma vez, achado de grande pessimismo e radicalismo muitas das posições deste autor, não encontro melhor forma de descrever o que se passa na III República que num dos seus textos. Tanto mais que tendo sido escrito em 1985 ganha uma intemporalidade notável.

"Nunca é demais denunciar que a economia portuguesa está em crise porque Portugal está em crise.
Tornou-se o Estado português como um grande «diner-buffet», onde os gulosos satisfazem a voracidade; mas, como qualquer «diner-buffet», desaparece rapidamente quando não há quem sirva com ordem e preceito e confeccione arduamente ao ritmo da voracidade.
E, no atropelo da corrida às vantagens individuais ou de grupo, criaram-se as tensões, o conflito, o isolamento. A convivência entre os portugueses está degrada e a competição exacerbada; imperam, como critérios de promoção socio-profissional, o compadrio, o sectarismo, a corrupção, a versatilidade de carácter.

A competitividade económica foi abafada pela competitividade política. A economia da capacidade concorrencial foi substituída pela economia da capacidade reivindicativa.

As análises, os diagnósticos e as terapêuticas sobre a economia portuguesa pululam. No ambiente em que se vive, são geralmente exercícios sectários ou expressões de circunstancialismos políticos".

Herlânder Duarte
Economia de Bem Comum (1985)

Foi beatificado João Paulo II no dia do trabalhador. Sobre o papel do trabalho na realização humana, a problemática filosófica do que andamos a produzir, para quê e com que efeitos? ou sobre os limites evidentes do liberalismo e do socialismo para resolver os problemas humanos foi, de todo, "milagroso" nas contribuições que nos deixou.

" O Homem de hoje parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz. ... Nisto parece consistir o capítulo principal do drama da existência humana contemporânea, na sua dimensão mais ampla e universal. Consequentemente, o Homem vive cada vez mais no medo".

João Paulo II
Encíclica Redemptor Hominis (1979)

Tirar partido de Surpresas



Sara Bareilles - The Light

Foi uma estrondosa surpresa o que encontrei nestas férias de Carnaval. Tinha um objectivo modesto. Há anos que não fazia a costa portuguesa entre a Lagoa de Albufeira (Caldas da Rainha) e S. Pedro de Muel (Marinha Grande). Pelo meio queria recordar o sítio da Nazaré e o seu Santuário Mariano. Duas alegrias. Na III República ainda existem “portugais” que tentam resistir à banalização e delapidação.
Começando pela banalidade, não é que na Nazaré as pessoas vivem a quadra espontaneamente, é ver os restaurantes e bares cheios de mascarados sem batuta organizativa! Passando ao estado delapidado a que chegamos é extraordinário que a costa a Norte de Nazaré, entre Légua e a Praia de Vieira, em termos ambientais, tenha sido preservada mas, ao mesmo tempo, devidamente equipada em quase todo o seu percurso. É, inclusive, possível em ciclovias e de forma pedonal percorrê-la na maior parte da sua extensão. Estava com receio, mas S. Pedro de Muel mantém o encanto de sempre.

Este Carnaval teve, também, uma particularidade encantadora. Como a Terça-feira, dita gorda, coincidiu com o dia Internacional da mulher, as homenageadas tiveram a sorte de não serem instrumentalizadas e massacradas como, habitualmente, sucede anualmente a 8 de Março. Graças ao carnaval escaparam a ser tratadas de duas formas humilhantes. Com “cotas” e data “protectora”. A propósito de igualdades e semelhanças, que é um assunto sério, nada como ouvir Sara Bareilles. Não desejam os “humanos” o mesmo das relações humanas independentemente do “género”? Encontrar quem seja fonte de energia para a sua existência e luz que ilumina uma trajectória de vida. Umas vezes ter espaço para respirar, outras a oportunidade de recuperar uma respiração perdida ou, ainda, possibilidade de optimizar novas formas de respiração?




Sara Bareilles - Breathe Again