O que é uma pessoa interessante?

Perante um desafio mental destes ocorrem dois caminhos. Num sintético diria que é alguém que encontrou, com personalidade, um sentido para a peregrinação humana, se me derem mais tempo necessito de três parágrafos.
Viver não basta ao Homem. Este deseja existir (projectar-se de forma singular para fora de si), munido da sua essência (explorando o que tem de intimo dentro de si). Aqueles que procuram sentido para as suas reflexões e acções, tomando consciência que a sua vida e existência é transitória e está rodeada de coisas efémeras, peregrinam.
A peregrinação é fundamental ao homem, pois ela traduz o sentido de caminhada, a consciencialização do que se fez, falta fazer, não se deve fazer ou não se devia ter feito. Um sentido entre o que se alcançou e ainda falta alcançar. É uma insatisfação salutar, um estímulo ao desejo de não nos contentarmos com o que foi feito.
O peregrino, porque é caminhante, tem pouco apelo ao desnecessário. Libertado do supérfluo e agarrado ao essencial está mais capacitado para encontrar pistas satisfatórias quer para a sua vida, quer para a sua existência.

TEMPO. Realidade traiçoeira

O mês de Fevereiro sempre me foi, particularmente, propício para meditar sobre o TEMPO, a vida e a existência. Não acontece ao acaso. É de longe o mês em que conheço mais pessoas a fazerem anos e dá-se a coincidência, também, de ser nele que ocorre o meu aniversário natalício.
Sempre achei o TEMPO, e a forma como ele é usado, dos mistérios mais refinados. Medir sobre este conceito é das funções mais complexas. Desde logo do ponto de vista quantitativo e qualitativo podemos ter percepções diversas. Vejamos para sermos mais inteligíveis.
Matematicamente o século XIX começou no dia 1 de Janeiro de 1801 e terminou em 31 de Dezembro de 1900, o século XX surgiu no primeiro dia do ano de 1901 e terminou, somente, no final de Dezembro de 2000, apesar dos estrondosos festejos, errados, um ano antes que arrastaram, em falácia, o próprio prestígio do fim e surgimento de um novo milénio. Neste momento, em 2010, ainda não completamos o fim da primeira década do século XXI.

Tudo o que se acaba de dizer, no campo da actividade humana, não serve para medir o efeito do TEMPO nas organizações sociais. Por essa razão só me sei orientar da seguinte forma:
-Século XIX: Teve o seu início em 1815 com o Congresso de Viena (1814/15) e terminou com o desfecho da I Guerra Mundial (1914/1918). Num certo sentido podemos dizer que o século XX teve um parto antecipado com a revolução bolchevique de 1917. Estamos a falar de 104 anos (1815/1918).
-Século XX: Do Fim da I Guerra Mundial até ao Término da URSS em 1991. Também aqui podemos dizer que o século XX nasceu prematuro com a queda do muro de Berlim em 1989. Temos 73 anos (1918/1991).
-Século XXI: Começou, indefinido, em 1991 e teve uma clara afirmação com o 11 de Setembro de 2001. De momento parece-me que tem 19 anos.

Em politologia a questão complica-se, normalmente, um pouco mais. O TEMPO provoca teorias, doutrinas e ideologias em redes complexas de famílias politicas que vão por os homens a desfrutá-lo de forma diversa. Os que têm preferência pelo TEMPO passado tendem a ser tradicionalistas, os que privilegiam o TEMPO presente a ser conservadores, os que se inclinam para o TEMPO futuro a serem revolucionários.

A violência do TEMPO é das coisas mais pesadas. Basicamente ela pode ocorrer de dois modos. O TEMPO ser insuficiente, acabar abruptamente ou, ao inverso, ele prolongar-se, ser imposto. Adriano Moreira, afastado da Ciência Política no seu estado bruto e fora do seu rigor metodológico e conceptual, produziu um texto fabuloso, num humanismo tocante, em que capta este dualismo da violência do TEMPO de forma magna.

“A violência é a antecipação do fim. Uma vida para ainda durar. Antes do Tempo. A mão que se aperta e que arrefece. Morta sem ter gasto todo o seu calor. Os olhos que se fecham sem ter visto. O leite derramado. A semente que apodrece e não germina. A mulher que morre e, com ela, as mil gerações de filhos que teria. O menino que não chegou a crescer. O rapaz que não pôde envelhecer. O velho que não viu o neto prometido. Tudo antes do tempo. Mas também é violência o tempo que nunca mais acaba. A obrigação de estar. A proibição de partir. A condenação de viver. Ou o viver condenado. O fim da liberdade antes do tempo. Violência branca. Sem porta de saída. Durar para além do querer. O ponto final sempre distante. Somando a violência da vida repartida. Pelos atalhos. Com falta disto e daquilo. Sem estradas. Imagens repetidas de espelho em espelho. Cada desejo um fracasso. A mudança impossível. Tudo como sempre. No fim como no princípio (…)”.

Se saltarmos para a musica, ninguém captou melhor, apoiado numa reflexão intelectual, o que os homens fazem e desfazem com o TEMPO, como os Pink Floyd em High Hopes, numa música incluída no Álbum The Division Bell, surgido em 1994 e sobre a direcção de David Gilmour e Polly Samson. Num brilhantismo que dói, foram recordar uma simbologia, marcante, da retórica parlamentar britânica. O sino, e o seu efeito sonoro (division bell), usado para terminar discussões em que a comunicação inteligível deixa de poder ocorrer.
Falando deste TEMPO dialéctico, entre a argumentação e a retórica, entre os que procuram a filosofia ou os que se contentam com o sofismo, permitam-me considerar que este Álbum, centrado na falta e excesso de comunicação, que em comum só contribuem para o isolamento, é intemporal. Como sabem do que estão a falar, elaboraram um vídeo clip que não ignora as «teorias de comunicação» alicerçadas em representações que se exprimem mediante a análise de fluxos e trajectórias, em que objectos circulares e esféricos assumem protagonismo. No fundo uma sujeição aos processos de comunicação representativa, expressiva e confusa, esta última numa mutação em “confusionante”.

Comunicação Representativa: Realizada por acções pontuais, com momentos determinados e visando determinadas finalidades, atomista (o emissor e receptor estão separados) e mecanicista (respeita o princípio de linearidade na transmissão). Ocorre uma causalidade linear em que o impacte sobre o receptor é sempre calculável.
Comunicação Expressiva: Deixa de existir o envio, por parte de um sistema emissor, de uma mensagem calculável para o receptor. Cria-se uma causalidade circular num meio ambiente complexo, menos determinado do que o existente no modelo de Comunicação Representativa. O modelo tem em conta que o observador possui influência determinante sobre o que pretende observar, abre-se caminho ao papel de resistência ou de amplificação que o receptor pode ter em face das mensagens enviadas pelo emissor.
Comunicação “Confusionante”: Surgida no contexto de excesso de fontes de informação que se atropelam umas ás outras, criando uma exaustão de ofertas e uma incapacidade de digestão por parte da procura. Modelo simultaneamente autista (ocorre um auto/fechamento em que deixa de ser necessário comunicar o pensamento a outrem nem de se conformar ao dos outros) e tautológico (emissor e receptor confundem-se, tornando-se realidades idênticas). A contracção dos termos Tautologia e Autismo leva ao surgimento do conceito de “Tautismo”.




Podia continuar no campo sentimental e emotivo. Mas não ouso, por pudor e respeito, reflectir sobre o papel que certos acontecimentos têm no meu TEMPO próprio e único…
O que posso apenas dizer, e tento fazê-lo sempre que em Ética tal permite, que o mais singular no Homem, aquilo que o torna único e irrepetível é a forma como ele interpreta o seu TEMPO Imanente (que permanece interiormente) e o seu TEMPO Transitivo (que passa não deixando memória e recordação).

Existe o TEMPO traiçoeiro, da decepção, o TEMPO que “volta ou não volta para traz”. É uma “faca de dois gumes” o TEMPO com todos os seus equívocos. O que aconteceu e o que poderia ter acontecido. A propósito de “facas no TEMPO ou apontadas no TEMPO” faço, ainda, uma confidência musical. Vale a pena escutar a “naifada” dos Genesis (Knife), nos tempos de Peter Gabriel, para ter mais força para pensar e meditar nestas coisas do TEMPO diversas, por exemplo, de ler horas num relógio de pulso e pensar que se sabe contar o TEMPO.
Obrigado, Genesis, por esta cavalgada de rock sinfónico para, tanta vez na decepção, acreditar que o TEMPO tem sentido e nele se podem inscrever projectos viáveis de vida, sem esquecer as armadilhas e campos de batalhas que os povoam com guerras físicas que são, tantas vezes, guerras de consciência. Só se sobrevive ao TEMPO com força de ressurgir, com vontade de recomeçar, com esperança de ressuscitar sendo, enfim, «Senhor do TEMPO».

A confusão entre «DE» e «COM» pode baralhar a compreensão das coisas.

Muito se fala «DE muçulmanos», «DE cristãos», «DE judeus», «DE agnósticos» e «DE ateus». Um pouco menos «DE panteístas», por exemplo, mas deve ser por terem menos cota de mercado. Não seria mais proveitoso falar «COM muçulmanos», «COM cristãos», «COM judeus», «COM agnósticos» e «COM ateus».
Talvez por este facto alguns dos maiores cemitérios do Divino tenham surgido em faculdades de Teologia, Habitat´s de especialistas em pensarem e falarem «DE Deus» ao invés de «COM Deus». Vem-me à memória a adolescência e a paciência necessária para os peritos em conversar «DE mulheres», acumulando esta liderança com a inexperiência de conversar «COM mulheres», contribuindo para uma clara iliteracia do feminino. Como professor vou ambicionar conversar mais «COM alunos» do que manter conversas em torno «DE alunos».

Uma música para 2009

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Confrontado com a reflexão de escolher uma música que me tenha, particularmente, marcado neste ano que termina, veio-me à mente de imediato Sara Bareilles. Não me vou esquecer tão cedo da dupla nomeação para «melhor performance vocal pop feminina» e para «melhor música do ano» com a música “love song”, na 51ª Grammy Awards de 2009, sem que nenhum prémio tenha sido alcançado.
Na companhia de Pink e de katy Perry pareceu-me uma proeza a nomeação. Impondo espaço próprio, não fazendo cedências fáceis ao ambiente dominante marcado por estereótipos bem filtrados em videoclips que vivem da temática sexual, preferencialmente lésbica e bissexual, não abusando do calão, da linguagem em estado embrionário e do simplismo de conteúdos que no estado instintivo, não cognitivo, esgotam as suas mensagens, não é tarefa alcançável para todos.
Meditar que estamos perante alguém que não é uma simples “máquina de canto”, pois compõe o que canta com sentido, mais fascinante se torna. Arrastarmo-nos para uma situação de atracção pelo conteúdo das letras não é difícil.
A minha opção é simples. Foi no álbum “Little Voice”, no ano de 2007,que surge a música “Gravity” (o conteúdo da letra provoca um autentico calafrio emocional), com a posição de décima segunda música no alinhamento discográfico. Este ano Sara Bareilles iniciou uma tornée, intitulada e suportada neste título, com ligeiríssimas modificações (The Gravity Tour), imortalizando esta música com merecimento. Por esta razão escolhia-a para uma marca indelével de 2009, não deixando de considerar que a sua melhor música, até ao momento, se intitula “Between the lines”, datada de 2007, e incluída no álbum “Little Voice” já citado.
Na companhia da música de Sara Bareilles até dispensaria qualquer passagem de ano, mais ou menos encomendada, poupando-me a divertimentos calendarizados.

Boas Festas

No Natal bem conhecemos os protagonistas. Sociologicamente as crianças, teologicamente Jesus Cristo e sua Mãe. Nesta data tenho andado, nos últimos anos, centrado na figura de S. José.
Não querendo protagonismos, mas não deixando de cumprir; adaptando-se às circunstâncias não se deixando aprisionar por elas; gerindo dificuldades e riscos; contentando-se com uma paternidade que, biologicamente, lhe escapou mas nem por isso deixou de ser activa; tornou-se um brutal exemplo de desprendimento, ninguém se irrita com a Sua existência, ninguém ousa perder muito tempo a louvá-Lo. Parece que ninguém se queixa pela Sua passagem na Terra.
Só queria aprender Contigo a passar uma vida sem que ninguém pudesse ousar dizer que se sentiu prejudicado pela minha existência. O que mais admiro em Ti é que com essa conduta nem criaste discípulos fanáticos nem detractores que abusivamente, no decurso de séculos, têm usado o Teu nome nas circunstâncias mais dispares. O mesmo não se pode dizer das outras Figuras do Presépio.
Se tivesse de escolher um cartão de Natal, em homenagem à Tua conduta, escolheria um ícone em que estivesses simplesmente a dormir, mergulhado num sono e sonho profundos, prestes a ser interpelado por um Anjo. Bendita comunidade árabe maronita que tem o que procuro há séculos. Como estou na época dos "media" parece-me bem acompanhar o cartão com uma canção em aramaico, aproximando-me o mais possível do tempo histórico em análise. Uma vez mais vou-me recorrer de uma cantora árabe maronita (Ghada Shbeir).
Deus – tendo-se feito Homem na forma de Jesus Cristo - é um exemplo de paciência para com a natureza humana. Os dilemas são complexos. Convivendo com crentes já tenho vacilado na Fé do Presépio, felizmente existem agnósticos e ateus que me estimulam no sentido contrário. O melhor é que não se cumpra uma das máximas de Friedric Nietzsche (1844/1900): “Até Deus tem o seu Inferno. Conviver com os Homens”.







http://www.ghadashbeir.com/
http://www.youtube.com/watch?v=j4536l4Y4VY (In Bethlehem " an Aramaic lullaby which was originally sung by Blessed Virgin Mary to the new-born Jesus.)

Desejar ou Querer

Aproximam-se as festividades natalícias com importância educativa para as crianças. O Natal, mesmo descristianizado, tem sido um rito de passagem, de socialização, de gerações. Tempo propício para pedidos e dádivas, no fundo para uma partilha, tem sofrido nos últimos anos uma mutação de tónica em que existe uma transferência dos desejos para os quereres.
As crianças, num tempo em que uma minoria persiste em pedir ao Menino Jesus, um grupo mais maioritário ao Pai Natal e outro, o mais massivo e extenso, directamente ao estatuto económico familiar em que estão inseridos de forma dependente, parecem nestas subclasses terem todos em comum quererem coisas ao invés de desejarem coisas. Estão a ser mal preparados para a vida, para os condicionamentos facilmente vividos como traumas, lidando mal com as contrariedades, vão coleccionar numerosas frustrações.
Desejar e querer parecem a mesma coisa mas não são. Trata-se de um errado pensar-se que é um preciosismo como o tratamento que separa o “tu” do “você”. Preparar uma criança para dizer: Desejo uma bola, uma bicicleta ou uma playstation, ao invés de quero uma bola, uma bicicleta ou uma playstation, não é a mesma coisa. É toda uma «filosofia de vida» que está em causa.

Um dos mais perspicazes filósofos contemporâneos, o basco Daniel Innerarity, não deixa de meditar no assunto com astúcia:

(1)“Mas a distinção de princípio continua a ser útil. Uma pessoa pode desejar que o corpo a não limite, não poder adoecer, não voltar a ser enganada, viver numa sociedade sem conflitos, sem interesses nem identidades particulares, ditar a lei definitiva, que se imponha sempre a força do melhor agrupamento; mas propriamente falando, não se pode querer essas situações”.

Um dos maiores desafios que se impõe, nas relações humanas, resulta da incapacidade de se viver com contrariedades, aquilo que por vezes apresentamos, simplesmente, como “contratempos”. Neste aspecto Innerarity vai mais longe quando não põe as insatisfações no mero plano da aprendizagem mas vê nelas um caminho necessário para se alcançar a felicidade. Ou seja, a própria felicidade necessita de aspirações e realizações não conseguidas, mas num ambiente em que não faz mal nenhum desejarmos que as coisas corram o melhor possível.

(2)“É isso que acontece nas utopias que imaginam a satisfação de todos os desejos esquecendo que são próprias do Homem tanto a satisfação como as aspirações nunca plenamente satisfeitas. «Uma vida que satisfizesse directamente a sua determinação gorá-la-ia (…). A vida humana estreitar-se-ia enormemente se não contemplasse outro cenário além do da inteira realização das aspirações pessoais e sociais. Não há humanidade onde as coisas só podem correr bem, embora também seja muito humano o desejo de que isso aconteça. Por isso nós dizemos coloquialmente: Que alguém teve a pouca sorte de um êxito prematuro, que lhe correram demasiadamente bem as coisas e que perdeu a experiência da decepção, fonte da verdadeira aprendizagem”.

(1); (2) INNERARITY, Daniel (2009), A Sociedade Invisível, Editorial Teorema, 1ª Edição, Lisboa, pp. 214 e 215.

A arrumar livros, após preparar umas aulas de Ética e Deontologia, não é que encalho em Karl Popper da melhor forma!

Vivemos derradeiramente momentos em que o desvario de promessas activadas nas situações mais variadas é mentor de altas expectativas, projectos grandiosos rapidamente geradores de todo o tipo de decepções e frustrações. Nuns casos, pensemos na classe política e empresarial (indistinta em muitas sociedades), uma «minoria exerce a actividade sobre a maioria». Em muitos mais casos aplica-se a máxima igualitária «meio mundo tenta enganar o outro meio mundo».
A gravidade do problema é grande e parte da megalomania dos que pensam, dramaticamente quando podem, estar na posse de soluções para os receios e medos que assolam as sociedades. Para quando valorizar-se o se ser parco nas promessas, nas capacidades de resolução dos problemas, na vaidade de se pensar que se pode alterar materialmente e psicologicamente o próximo.
O desvario na matéria é total. A política “cria” a sociedade, a medicina “dá” saúde, a amizade “fabrica” felicidade, existe quem “faça” amor. O Homo Sapiens Sapiens (nos dois géneros) bem pode comprar muitas cadernetas para coleccionar cromos de decepções.
Querem salvar a humanidade sem, individualmente, salvarem ninguém. Prometem na generalização sem concretizar na individualização. João Carlos Espada, na sua perspicácia politológica e profundamente conhecedor da obra de Karl Popper, capta o pensamento deste último de forma magistral (ainda bem que andei a arrumar livros):

“Finalmente, Popper sustenta que a engenharia social parcelar da sociedade aberta deve ser inspirada por uma máxima negativa que consiste em «aliviar o sofrimento humano susceptível de ser aliviado». De certa forma, trata-se de uma versão negativa da máxima utilitarista de «maximizar a felicidade do maior número». A versão negativa é preferível pelas mesmas razões que, em politica, é preferível combater males concretos do que promover bens abstractos. Em primeiro lugar, porque é mais fácil definir objectivamente sofrimento do que felicidade. Em segundo lugar, o sofrimento alheio é susceptível de produzir um directo apelo moral, o que não acontece necessariamente com a promoção da felicidade de terceiros. Finalmente a promoção da felicidade dos outros frequentemente envolve a intromissão nas suas vidas privadas e em posição sobre eles de uma hierarquia de valores – o que é desnecessário ou apenas excepcionalmente necessário quando se trata de aliviar o sofrimento ou combater males conhecidos”.

ESPADA, João Carlos, ROSAS, João Cardoso (Organizadores - 2004) Pensamento Político Contemporâneo. Uma introdução. Bertand Editoa, 1ª ed., p. 22.

Aprender com os erros no pensamento de Karl Popper (1902/1994)

Na sequência do último post têm-me perguntado, sinteticamente, o que no pensamento de Karl Popper (1902/1994) mais me fascina. Abstraindo as suas contribuições académicas vou-me centrar, apenas, no “Homem”. Sempre me fez grande impressão cruzar-me com pessoas que acham que «não erram» ou, mais humildemente, «raramente se enganam». Popper faz do erro aprendizagem, num confronto em que não medita que temos de o aceitar, apenas, quando ele é detectado, mas defendendo que só crescemos intelectualmente e humanamente quando o encontramos sem medo com a coragem, até, de o procurarmos.

“O que é mais importante é adoptar uma atitude crítica e compreender que não é apenas a tentativa que é necessária, mas também o erro. E tem de aprender não só a esperar que haja erros, mas também procura-los conscientemente. Todos nós temos uma tendência pouco científica para pensar que temos sempre razão, e esta tendência parece ser especialmente comum entre políticos profissionais e amadores. Mas a única maneira de aplicar algo que se assemelhe a um método científico em politica é agir com base no pressuposto de que não há acção politica nenhuma que não tenha inconvenientes, que não tenha consequências indesejáveis. Estar atento aos erros, identifica-los, revelá-los abertamente, analisá-los e aprender com eles, é isto que faz um politico científico e é, também, o que deve fazer um cientista político. Em politica, o método cientifico significa que a grande arte de nos convencermos de que não cometemos erros nenhum, de os ignorar, de os esconder e de responsabilizar terceiros pelos erros cometidos é substituída pela arte maior de aceitar responsabilidades por esses erros, tentar aprender com eles e aplicar o conhecimento assim adquirido de modo a evitarmos os mesmos erros no futuro”.

POPPER, Karl (2007), A Pobreza do Historicismo, Esfera do Caos editores, 1ª ed. p. 84.

Obrigado Karl Popper

Obrigado Karl Popper (1902/1994) por me ajudar a superar ter de conviver com propostas e previsões eleitorais que não são mais do que conjecturas provisórias manipuláveis do campo dos observadores ditos imparciais.

Terminado um ciclo pesado de três eleições -em que muito se falou de sondagens e previsões devidamente e abundantemente cimentadas em comentários políticos, inquestionavelmente, com “fins construtivistas”- parece-me oportuno recordar o pensamento de um dos maiores filósofos do século XX. Claro que a pessoa em causa só serve para reforçar a minha convicção que um dos maiores dramas das sociedades actuais advém da «manipulação do Tempo e dos acontecimentos medidos no seu interior». Facto que se aplica quer se trate de um tempo passado, presente ou futuro.

Nos acontecimentos que meditamos neste post, a forma como estes podem ser reflectidos e projectados num «tempo futuro», do que está para acontecer, da necessidade vertiginosa de aprisionar o que está para vir, condicionando a forma como os acontecimentos deveriam decorrer sem intromissões, é o objecto central da meditação. As previsões são sabotagens premeditadas mas não controláveis dos seus efeitos finais, condicionam a liberdade, fazem da escolha uma confirmação de algo determinado previamente. É a “batota” com roupagens científicas mais subtil que obriga a ter finura intelectual para ver a instrumentalização. Pena é que as análises de Karl Popper sobre a «pobreza do historicismo», com mais de meio século de existência (1957), estejam tão esquecidas.

“Uma previsão é um acontecimento social que pode interagir com outros acontecimentos sociais, entre os quais se inclui aquele que a previsão estipula. Tal como vimos, a previsão pode ajudar a precipitar esse acontecimento; mas é fácil ver que também poderá influencia-lo de outras formas. Num caso extremo, a previsão pode até causar o acontecimento que prevê: é possível que o acontecimento não tivesse sequer ocorrido se não tivesse sido previsto. No outro extremo, a previsão de um acontecimento iminente pode levar à sua prevenção (de modo que se pode dizer que ao abster-se, deliberadamente ou por incúria, de prever o acontecimento, o cientista social pode fazer com que ele aconteça). Haverá sem duvida muitos casos intermédios entre estes dois extremos. O acto de prever qualquer coisa e o acto de se abster de prever podem ambos ter as mais diversas consequências.
Ora, é nítido que os cientistas sociais devem, mais cedo ou mais tarde, tomar consciência destas possibilidades. Um cientista social pode, por exemplo, prever uma coisa, sabendo de antemão que a sua previsão irá causar o acontecimento em causa. Ou pode negar que um determinado acontecimento seja de esperar, impedindo-o assim de se concretizar. E, em ambos os casos, pode estar a respeitar o princípio que parece assegurar a objectividade científica, isto é, o de dizer a verdade e apenas a verdade. Mas embora tenha dito a verdade, não podemos dizer que tenha respeitado a objectividade científica; pois, ao fazer previsões (que acontecimentos posteriores comprovam) pode ter influenciado os acontecimentos fazendo-os tomar um rumo favorável às suas preferências pessoais”.

POPPER, Karl (2007), A Pobreza do Historicismo, Esfera do Caos editores, 1ª ed. pp. 19/20.

Legislativas 2009


Amanhã põem-me em reflexão eleitoral. Como não gosto de grandes solidões vou pedir umas ajudas apoiado nalguns autores

Ditadura das Sondagens (Texto nº1)
Ao invés do regime soviético que desconhecia o pluralismo e, por consequência, governava sem os sobressaltos provocados por uma oposição institucionalizada ou pelo menos papel fiscalizador da comunicação social, verifica-se que toda a actividade desenvolvida pelo partido maioritário no governo e no parlamento das sociedades democráticas é dominada por um efectivo clima de psicose – se não mesmo de terror – dos governantes, traduzido num frenético pavor das sondagens indicativas dos níveis de popularidade dos membros do governo e das votações previsíveis no partido governamental em confronto com os partidos da oposição.
A Democracia cede lugar aqui à “sondocracia” que, expressando situação de total dependência do poder político face aos resultados das sondagens, condiciona toda a decisão política a esses mesmos resultados, criando-se, por esta via, uma verdadeira “sondágio-dependência”.
Poder-se-á mesmo dizer que, tal como o partido governamental comanda o Estado, também os índices de sondagens comandam a actividade do governo e da maioria parlamentar: as grandes decisões são sempre resultados de estudos ou pesquisas de mercado sobre os seus potenciais efeitos eleitorais, observando-se que existem decisões que são quase sempre tomadas antes das eleições, tal como existem outras que apenas se pode imaginar imediatamente após uma vitória eleitoral.
Neste último sentido, o “Estado do partido governamental” vive numa situação de verdadeira “toxicodependência” da opinião pública e dos meios de comunicação social, em especial da televisão (…).
Paulo Otero

Ditadura partidocrática (Texto nº2)
O “Estado de partidos”, além de assentar num modelo intervencionista próprio do Estado social, pressupõe que aos partidos políticos seja reconhecido pelo Direito “um exclusivo ou quase exclusivo da representação política global da colectividade”: surge, deste modo, o conceito de “mediação partidária” na representação política, a natureza do mandato parlamentar altera-se, os partidos são chamados a exercer funções “não estritamente eleitorais”.
Deste modo, a função política, a função legislativa e uma parte significativa da função administrativa encontram-se totalmente “colonizadas” pelos partidos políticos: o critério de decisão material dos órgãos do Estado é aferido, em primeiro lugar, pelos interesses partidários, verificando-se que apenas em momentos posterior se pondera (eventualmente) o interesse público, pelo que o timing eleitoral se assume como o principal fundamento das acções ou omissões decisórias do poder público.
Pode-se mesmo chegar ao extremo de deslocar para o interior das estruturas orgânicas dos partidos políticos ou para conversações e acordos celebrados entre militantes partidários que não ocupam qualquer cargo parlamentar ou governativo aquelas que virão a ser algumas das principais decisões jurídicas do Estado, verificando-se que a sua formalização pelos respectivos órgãos competentes é uma mera fantasia (…).
Paulo Otero

Democracia neocorporativa (Texto nº3)
Precisamente porque o funcionalismo da “ democracia neocorporativa” privilegia os interesses organizados e, dentro destes, aqueles que têm maior poder reivindicativo, o Estado pode ser tentado a abdicar da sua posição de defensor do interesse da colectividade, deixando de tomar em consideração os interesses daqueles que não se encontram representados: a tentação de obter a paz social a qualquer custo, determinando a cedência do Estado aos interesses dos grupos mais poderosos, poderá bem conduzir a um modelo de democracia parcial, injusta e de desequilíbrio inigualitário a favor dos interesses dos mais fortes.
O certo é que a “democracia neocorporativa” mostra-se, ela própria, fonte de inesgotáveis conflitos: se a satisfação de um interesse é feita à custa do sacrifício de outros interesses, os grupos defensores destes últimos desencadearão as reacções devidas; se, pelo contrário, existiu uma conciliação dos diversos interesses em presença, ela será sempre de curta vigência, desencadeando-se de imediato novo processo reivindicativo para a satisfação de sucessivas pretensões.
Neste último sentido, verifica-se que a “democracia neocorporativa”, não obstante o seu propósito de atenuar os conflitos sociais, acaba por alimentar um processo espiral de constantes reivindicações, deixando o governo na tentação de permitir que o Estado se transforme num instrumento de satisfação dos mais fortes contra os mais fracos ou, pelo menos, num meio de concretização dos interesses dos grupos mais reivindicativos, operando-se aqui um fenómeno de “colonização do Estado por interesses de grupos”.
Paulo Otero

O País da Não-inscrição (Texto nº4)
“Em Portugal nada acontece, <>, escreveu alguém num “graffiti” ao longo da parede de uma escadaria de Santa Catarina que desce para o elevador da Bica.
Foi assim também que a vida social portuguesa, agora pacificada, normalizada, viu a não-inscrição reassumir os seus privilégios em todo o seu esplendor. Tal ministro que se aproveita ilegalmente de uma lei para escapar ao fisco demite-se para voltar à tona incólume, meses ou anos depois; o escândalo que marcha a acção de um governante, longe de o afastar definitivamente da política, pode ser mesmo a ocasião para começar uma carreira com um futuro ainda mais brilhante (um posto mais bem remunerado ou com prestígio internacional, etc.). Nada tem realmente importância, nada é irremediável, nada se inscreve.
E se tudo se desenrola sem que os conflitos rebentem, sem que as consciências gritem, é porque tudo entra na impunidade do tempo – como se o tempo trouxesse, imediatamente, no presente, o esquecimento do que está à vista, presente.
Como é isto possível? É possível porque as consciências vivem no nevoeiro. (…).
Explicam-se assim, por exemplo, os inúmeros regimes de consciência clara que habitam a consciência de um português. Regimes que se entrechocam, se sobrepõem e nunca se excluem. É certamente o que torna possível a facilidade de passagem de um regime de consciência a outros (heteronímia), num português. (…).
A leviandade suscitada pela não-inscrição permite que a lei não se cumpra ou que dela se escape, que os programas não se realizem, que não se pense nunca a longo prazo, que as fiscalizações não se façam, que a administração não se transforme realmente, que os projectos de reforma não se executem, que os governos não governem. Nada tem realmente existência. A não-inscrição induz um tempo social particular, só o presente pontual existe: à sua frente está o futuro que se fará sentir apenas com o surgimento - repetição do presente. O futuro, sobretudo longínquo, não existe, não tem consciência, não se prevê. Porquê? Porque nada há para se inscrever, nem uma ideia para o País, nem um destino individual. (…).
Em contrapartida, somos um País de burocratas em que o juridismo impera, em certas zonas da administração, de maneira obsessiva. Como se, para compensar a não-acção, se devesse registar a mínima palavra ou discurso em actas, relatórios notas, pareceres - ao mesmo tempo que não se toma, em teoria, a mais íntima decisão, sem a remeter para a alínea X do artigo Y do decreto-Lei nº tal do dia tal de tal mês do ano tal”.
José Gil

O Clube dos Deputados Mortos (Texto nº5)
“A irrelevância do Parlamento português é conhecida. E previsível. Surpreendentemente. Todavia, é o facto de os deputados não se darem conta do declínio em que vivem. E espantosas são as reacções da instituição ao tentar desesperadamente descobrir uma dignidade e inventar uma importância.
É neste quadro sombrio que se deve entender a sua iniciativa de nomear «deputados honorários» e de mandar esculpir os bustos de alguns antigos membros. Desenterram os mortos, o que, com o enterro dos vivos, define um estilo. À falta de funções, o Parlamento procura tradições. À falta de competências, faz encenações.
Há décadas que o Parlamento perde importância e competências. Perdeu com os executivos, que ganharam em toda a linha, incluindo nas funções legislativas. Perdeu com a imprensa, mais viva, mais inteligente e mais próxima da opinião pública. Perdeu com a televisão, mais interessante, mais animada e mais íntima. Perdeu com as câmaras municipais, mais úteis, mais imediatas e mais representativas. Perdeu com a União Europeia, mais importante, mais poderosa e mais glamourosa. Perdeu com as multinacionais, mais ricas, mais eficientes e mais modernas. Perdeu com as sondagens, mais titilantes para as populações e mais ameaçadoras para os governos. Perdeu com um sem-fim de actividades e organizações, como as universidades, as discotecas, as telenovelas e a Internet. Tendo perdido tanto, impressiona o facto de tão pouco se interrogar e tão pouco tentar mudar. A crise do Parlamento é, por enquanto, a crise da democracia. E não sabemos ainda se esta se salva com aquele, ou se só se salva sem ele”.
António Barreto


Inveja/Omissão - “O Charco” (Texto nº6)
“Não há certamente cuidado mais lastimável do que aquele que se traduz em impedir a realização dos projectos dos outros. Só porque são projectos, só porque são dos outros. Todavia não falta quem faça, da sua própria vida, um exemplar missão de impedimento. Gente que vê de longe. E que, quando lhe acontece desempenhar uma função pública, também vê de alto. Modestos nas suas ambições, não desejam acrescentar nada à construção do Mundo. Se lhes acontece edificar um muro, é acidente de que não se gabam. Para serem felizes basta-lhes o que impedem de ser feito. Nas horas calmas de revisão do passado, contemplam alegres os desertos que asseguraram. Recordam ideias cuja divulgação impediram (…)”.
driano Moreira